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A Esquerda e as Forças Armadas

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Quando o sujeito acredita na ideologia de esquerda, não quer dizer que ele acredita em todas as figuras que a representam. Isso é um pouco óbvio. Mas o que eu quero dizer e não soube bem descrever é que a nossa esquerda ainda caminha a passos lentos, repleta de imaturidades. Por mais que se acredite na ideologia e nas teorias, muitos dos que a defendem, ainda não apontam caminhos sólidos, nem praticam o que se prega. Vou contar o que aconteceu neste sábado, para vocês entenderem o ponto em que eu quero chegar.

A festa era ali no Centro da cidade. Eu e um grande amigo nos sentamos numa daquelas mesas e ficamos a debater sobre a tragédia política do momento, o golpe. Como os golpistas, seus atos e sua militância já são assuntos batidos, alavancamos a conversa para outros pontos.

Chegamos às forças armadas, incluindo a PM. Ele, professor de história, formado no IFCS, tinha uma visão bastante crítica. A diferença dele para muitos outros é que ele sabe escutar e vem percebendo com a vida que nem tudo é fácil, belo e simples. Manter-se no meio daqueles que apenas gritam e insultam não nos fará avançar.

Lá pelas tantas, vem a minha confissão: “A esquerda não dialoga com ninguém das forças armadas. Pelo contrário, a grande maioria só xinga. Basta passar por um grupo da PM que todo mundo já faz coro para debochar dos caras. Se houver qualquer princípio de caos armado, todos se voltarão contra nós”.

Entendem-me bem, realmente é muito difícil tolerar a tirania de alguns policias e as táticas devastadoras nas regiões mais pobres, mas não podemos cair no conto de achar que todos são iguais e que nenhum tem jeito.

Depois da confissão, ficamos na parte que mais me incomoda: a militância não pode ver ninguém da PM que julga e enxota com gritos de intolerância.

Por mais reacionário e treinado para o fascismo que seja, o policial já é julgado sem o mínimo de diálogo. Se por um lado a direita tira selfies e faz homenagens, do outro se julga e descarta de primeira. A conclusão é que o policial não pode nem deve simpatizar com a esquerda. Ele não escolhe lado, a militância de esquerda já dá o lado dele.

A grande contradição é que no nosso meio existe uma teoria de que devemos sempre dialogar para atingir o alvo. As transformações virão com os debates e ensinamentos. Inclusive essa é a obrigação dos que atuam na área de educação. Deve-se conversar com morador de rua, camelô, bombeiro e o menor delinquente. Menos com a polícia.

Pois é, ninguém leva em consideração que o policial também é um trabalhador, que o policial tem família, que o policial pode ser um analfabeto político. E o que ganhamos com isso? Nada.

Voltando ao bar, em determinado momento chega um carro da PM. Eu, depois de algumas cervejas, chego para o companheiro e lanço o desafio:

– Vou te mostrar duas coisas: a primeira que nem todo PM é instransponível e com uma boa conversa a gente pode abrir o campo de visão deles. A segunda é que a partir do nosso diálogo alguém da festa vai nos olhar atravessado.

Não deu outra. A segunda constatação foi a mais fácil. Uma menina sentada atrás de nós, que antes havia demonstrado simpatia, começa a cochichar com outra amiga. Segundo meu amigo, a tal menina perguntou para ele discretamente se eu era policial. Mesmo ele dizendo que não, o estrago já estava feito: a menina fizera um sinal obsceno na minha direção, me descartando e condenando.

O mais engraçado é a infantilidade do ato. Ela manteve uma relação de parceria com meu amigo e me descartou do seu ciclo de aceitação. Ou seja, ela tentou cooptar o sujeito que estava comigo a ter o mesmo posicionamento que ela, sem saber quem eu era e sem saber o que se conversava. E isso representa bem uma parte da esquerda: intolerante, que não sabe ouvir, dialogar e principalmente, não pratica a teoria de que só revertemos o quadro conversando, ensinando e fazendo pensar.

O segundo ponto foi mais difícil. As convicções do PM realmente eram atrasadas. Segundo ele, o sujeito barbudinho, de roupa larga e fala mansa é um maconheiro subversivo. Tirando a roupa larga e a maconha, eu era exatamente como ele descrevera. A diferença é que ele se sentiu acolhido por nós, ficando a vontade para conversar.

Outra contradição engraçada foi sua analise sobre as drogas. Falou tudo de negativo que se possa imaginar. Acontece que no final, ele confessa que seu companheiro adora tomar uma durante o serviço e que ele gostava de uma branquinha. Pois é, uma hipocrisia danada. Ele não gosta do usuário, não gosta do traficante, mas usa cocaína. Não o moralizamos, apenas debatemos sobre o combate ineficiente que a polícia vem fazendo em torno das drogas. Era nadar no infinito.

Nos gostos políticos, por incrível que pareça, ele foi comedido ao falar de Bolsonaro. Segundo ele, o sujeito é um exagerado que joga para plateia, mas que ao menos defende a classe.

E ai fica mais uma dica da nossa imaturidade. Além de não dialogar com a classe a gente acaba perdendo a oportunidade para um fascista extremamente perigoso que é o Bolsonaro.

Com relação à presidência, ele reconhece que Lula foi o melhor até então e revela que havia votado nele. De tempos para cá, ele andava desconfiado das acusações que Lula vinha sofrendo.

Falamos também de ditadura militar. Não perdi muito tempo neste tema, preferi desconstruir de maneira prática. Relembrei as tiranias mostradas no filme Tropa de Elite. Falei do sujeito direito e esforçado que não tinha vez e que acabava sofrendo ameaças da própria corporação. Não havia organização, direitos, respeito. A ditadura militar foi isso em grandes proporções e para toda a sociedade.

Apontei que o caminho eram instituições fortes, democráticas, mantendo sempre as regras do Estado Democrático de Direito.

Resumo da ópera: o sujeito saiu de lá pensando e bem mais manso do que chegou. Obviamente que o efeito deve ter sido mínimo. A vida do policial não é fácil e desconstruir tudo o que eles aprendem ao longo da carreira não vai ser tarefa simples.

Mas fica a certeza de que os políticos de esquerda, maduros, capazes e com uma voz de força e expressão, devem tentar reverter esta situação com o diálogo. É preciso aproximação com os quartéis, seja do Exército, Marinha, Aeronáutico ou da PM. É preciso que algum de nós conte a história de como eles surgiram, para que eles surgiram e quem eles defendem. A história do Brasil também deve ser contada já que a grande maioria da população não a conhece.

Obviamente que as pautas que pedem o fim da Polícia Militar, legalização das drogas, também devem continuar. Mas o debate deve ser feito também com eles.

Vai dar trabalho, mas só assim a nossa sociedade irá avançar. Como dizem os mais moderados, deixemos o ódio e a intolerância para o lado de lá. Aproveitemos e deixamos também, longe de nós, a parte que exclusivamente julga e moraliza. A esquerda não pode entrar nesta onda. Vamos dialogar.

Deixo aqui um vídeo de um policial sensato, sobre política, ideologia e as forças armadas. Assistam:

Foto(*): bygu.net

Paulo Branco é professor de Artes Marciais e cronista.

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