fabio nogueira

A identidade negra e os aproveitadores

fabio nogueiraDeixei a poeira baixar para poder dar minha opinião sobre o assunto mais comentado desde o início do ano: a polêmica do turbante. O advento da globalização nos trouxe a cultura de vários países. É sempre bom estarmos antenados aos eventos, às culturas de outros povos para sairmos desse mundo encasulado e olharmos para além do nosso nariz. O uso do turbante é um desses exemplos. Sou a favor da diversidade, não vejo nada demais em pessoas de outras etnias querer usar os turbantes. A cultura negra é reconhecida no mundo inteiro por esses aspectos das diversidades. E vamos que vamos!

Não posso deixar de entrar numa outra observação que tenho em relação à chamada apropriação cultural. Desde que passei a conviver com os movimentos sociais e por obrigação ler mais e mais, tenho notado que muitos acadêmicos ao longo dos anos vêm se mantendo às custas da cultura negra. Algo de errado? Não. Mas, de volta às minhas considerações, há escritores, historiadores, sociólogos e em especial antropólogos que vivem falando do negro como sendo objetos de estudos. Isto não me deixaria perturbado até a página seguinte, na qual o assunto é compartilhar direitos e igualdade. Usar a cultura negra como entretenimento é ótimo negócio, mas na hora da divisão de privilégios o assunto é outro. Escrevo com convicção e causa de luta.

Quando as políticas de cotas raciais entraram em cena no início dos anos 2000, vários daqueles que viam a cultura negra como um meio de ganhar status demonstraram incômodos quando finalmente passamos a virar protagonista. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) havia dois professores antropólogos, cujas vidas acadêmicas foram em torno do negro e da cultura deles. Com a chegada das políticas de cotas universitárias um deles fez de tudo para tocar o terror: o discurso do medo foi a construção do seu debate.

Não serei patrulheiro ideológico. Quem achar por bem usar o turbante, seja por modismo ou identificação de luta, que fique à vontade. Mas não aceitarei os aproveitadores que ganham fama e prestígios tratarem o mesmo como algo exótico, ou atores sociais (negros) sem histórico de luta e resistência.

E quando o modismo acabar? Será que aquelas mulheres negras que usam o turbante com o ideal da afirmação serão ridicularizadas?

Muitas indagações devem ser feitas.

Aceito numa boa a cultura policrômica. Só não aceito os aproveitadores que sequer nos chamam para cortar o bolo da igualdade.

Fabio Nogueira é estudante de história da Universidade Castelo Branco e militante da Educafro.

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