fabio nogueira

A mão pesada do Estado sobre os mais pobres

fabio nogueiraHá quatros anos, a cidade do Rio de Janeiro foi surpreendida pela maior manifestação desde a redemocratização do país na metade da década de oitenta. O estopim foi o aumento das passagens de ônibus e outras reivindicações. Calcula-se que mais de cinquenta mil pessoas estavam espalhadas pelas principais ruas do centro da cidade. A cidade estava fora de controle: lojas, pontos de ônibus e praças foram danificadas. No final do balanço e de tanto caos, a polícia conseguiu prender uma pessoa: Rafael Braga. Sua foi o fato de ele estar portando uma embalem de pinho (detergente para limpeza doméstica) .O Estado armado tinha que mostrar sua eficiência.

Rafael Braga é morador de rua, não sabe ler e escrever, mal consegue expressar as palavras corretas. No entanto, o Estado o escolheu para ser o bode expiatório das manifestações do Rio. Ele foi sentenciado na semana passada a onze anos de prisão.

Esse exemplo da polícia dá a dimensão de como o Estado trata os desiguais desse país. Fazendo um paralelo, lembro-me que quando estudei o período Regencial, no Brasil Império, houve muito derramamento de sangue. A Regência tratou com mão de ferro as revoltas de caráter popular (Malês, Balaiada,Cabanagem e outras). Essas revoltas não chegaram a mais de quatro anos de conflito, pois o Estado agiu brutalmente. Por outro lado, a Revolta Farroupilha durou exatos dez anos de conflitos.

Aonde quero chegar ao fazer esta comparação? Conforme citado acima, o Estado sabe tratar de maneiras desiguais os atores sociais envolvidos. Quando se trata de grupos sob condições adversas, ele sabe até onde pode apertar. Rafael Braga faz parte desse grupo social que o Estado armado sabe como tratar. Aproveitando-se da pouca escolaridade do rapaz, simplesmente o poder cai em cima dele sem perdão.

Isto é uma pequena amostra. Agora amplie a sua mente, e imagine quando este aparelho opressor chega às favelas? O artigo 5º da constituição é rasgado. Nem sempre o favelado é tratado com os mesmos direitos de igualdade. Quando o problema é criminalizar a pobreza, a favela e os moradores são assistidos pelo poder .

O caso Rafael Braga é a síntese de outros descasos do poder com os mais pobres desse país. Sinto medo do Estado policialesco. Nada contra aqueles homens e mulheres que vestem a farda, sabemos que estes também são vítimas iguais aos demais. Tenho críticas sim à instituição e aos que a polícia presta serviços. Sabemos como seremos tratados.

Torço para que Rafael Braga e outros com a mesma condição tenham seus casos resolvidos. Torço também para que um dia o Estado trate todos com igualdade.

Fabio Nogueira é estudante de história da Universidade Castelo Branco e militante da Educafro.

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