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Antônio Callado: o centenário de um dos maiores escritores brasileiros do século XX

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O Ano de 2017 marca o centenário de Antônio Callado, jornalista e escritor imortal da Academia Brasileira de Letras cuja trajetória é lembrada por seu engajamento político. Nascido no dia 26 de janeiro de 1917, em Niterói (RJ), deixou uma obra literária que reflete principalmente o período antes, durante e depois da ditadura militar brasileira de 1964. Era um apaixonado por seu país, sempre tentando retratar uma identidade nacional. A Fundação Casa de Rui Barbosa, que detém seu acervo literário, prestou uma homenagem ao intelectual na última quarta-feira (26).

Callado passou pelos jornais mais famosos de sua época. Trabalhou na BBC, em Londres, cobrindo a II Guerra Mundial, e depois acompanhou a Guerra do Vietnã pelo Jornal do Brasil, dentre outros grandes eventos que marcaram a história do século passado. Sempre esteve em defesa dos oprimidos e contra as injustiças, mas nunca de forma panfletária. Algumas de suas reportagens viraram livros, como é o caso de Tempos de Arraes, que retrata o surgimento das Ligas Camponesas e o nascimento das lutas nacionais em defesa da reforma agrária. Foi preso durante a ditadura militar duas vezes, numa delas com diversos intelectuais denunciando à OEA o regime repressor instalado no país. Também dramaturgo, foi o pioneiro na criação de peças com protagonistas negros.

Durante o evento, o crítico literário Alcmeno Bastos, que pesquisou a obra de Callado, destacou a importância do livro Quarup, publicado pelo escritor em 1967, um ano antes do AI-5 que marcou o período mais repressivo do regime militar. O livro aborda a questão indígena e relata a história de um padre que larga a batina para entrar na luta armada contra a ditadura. Para ele, junto às obras Bar Don Juan, Reflexos do Baile e Sempre Viva, é possível compor o recorte de época mais amplo e explicativo da ficção brasileira naquele período. A obra de Callado é uma das grandes realizações da literatura brasileira: uma construção consistente e elaborada, acrescentou o pesquisador.

“Callado é o carro chefe, nenhum outro romancista nos anos de chumbo teve alcance tão amplo. Não são romances panfletários a serviço de uma causa: são romances políticos com a virtude do balanço crítico dos acertos e desacertos da resistência à ditadura. É útil às novas gerações saber que havia divergências nos movimentos, reflexões sobre as lutas, como no livro Reflexos do baile. Um produtor do indianismo cético, uma realidade do índio já aculturado através da sua experiência jornalística indo além dos estereótipos. Uma revisão do lugar do índio numa possível brasilidade”, afirmou.

Antes da publicação de Quarup, que marca a trajetória literária do escritor, a produção jornalística era sua linha mestra de trabalho, explicou Eduardo Jardim, outro especialista em literatura. “Em 1953 fez a reportagem do Esqueleto da Lagoa Verde, no Xingu, e depois em 1963 foi ao nordeste no que acabou se tornando o livro reportagem Tempo de Arraes, que também está incorporado no Quarup. Antes disso teve dois romances, A Assunção de Salviano e A Madona de Cedro, mas sem a mesma qualidade literária. Essas preocupações que ele trazia são mobilizadas em reação ao golpe”, lembra o pesquisador.

Sua tese é que Quarup foi sendo construído ao longo do tempo, refletindo os pensamentos questionadores do pensador e a procura de reconstruir a identidade brasileira. Movimentos espontâneos à esquerda, religiosidade, amor pleno e a valorização das utopias, dentre outros temas, estão traçados em diversas obras do escritor. “Mas tudo balançado com a contraposição de alcançar ideais. A problematização dessas metas. Depois vieram três romances políticos, mas com o passar do tempo ele vai perdendo confiança na revolução dos brancos e volta aos índios principalmente em Concerto Carioca”, conclui Jardim.

Filho do político Miguel Arraes, que esteve à frente do governo de Pernambuco no período das lutas populares pela reforma agrária e foi exilado do país com o golpe militar, José Albino foi presidente da Casa de Rui Barbosa e deu alguns testemunhos do seu encontro com o escritor. Destacou as descrições minuciosas no livro Tempos de Arraes, no qual o escritor sala sobre a revolta dos camponeses, o método de alfabetização de Paulo Freire, além dos trabalhos da Sudene no combate à seca.

“Se adotarmos a definição de século curto de Hobsbawm, Callado e Arraes atravessaram o século XX. Tudo isso moldou uma geração e esse homem, que acreditava que tudo é novo e empírico como diz no livro. E com aquela obsessão de tirar o Brasil da pobreza e dizer o que é essa identidade brasileira”, disse.

Antônio Callado morreu aos 80 anos em 1997. Conviveu com grandes escritores, artistas, políticos e intelectuais de sua época. Guimarães Rosa, Jorge Amado, Clarice Lispector, Gabriel Garcia Márquez, dentre muitos outros, constam no seu círculo de convivência. Escreveu ao todo nove romances, todos voltados para a realidade política e social do país. É autor ainda de seis livros reportagens, sete peças de teatro, um livro de contos e uma biografia, além de uma letra de samba. Será homenageado em fevereiro na Universidade de Oxford, na Inglaterra, e na Academia Brasileira de Letras, além do lançamento de um livro com suas crônicas em março e um documentário sobre sua história ainda neste ano.

Eduardo de Sá é jornalista.

Um comentário em “Antônio Callado: o centenário de um dos maiores escritores brasileiros do século XX

  1. Bela surpresa ao me deparar com essa simples e curta matéria sobre Antônio Callado. Autor de leitura obrigatória para os que desejam compreender a história, cultura e política do século XX no Brasil. Recomendo Quarup, talvez a mais voltada para a política.

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