Os chavistas voltaram às ruas nesta terça, dia 23, pela paz, pela Constituinte, contra a violência da direita (Foto: site da Telesur)

Venezuela: ou a revolução avança ou é derrotada – por Atilio Boron

Os chavistas voltaram às ruas nesta terça, dia 23, pela paz, pela Constituinte, contra a violência da direita (Foto: site da Telesur)

Os chavistas voltaram às ruas nesta terça, dia 23, pela paz, pela Constituinte, contra a violência da direita (Foto: site da Telesur)

Diante da brutal ofensiva da oposição, cujo comando está dominado pela ala violenta da ultradireita – criminosa por seus métodos e seus propósitos antidemocráticos – restam ao governo bolivariano duas alternativas e somente duas: consolidação e avanço da revolução ou derrota da revolução.

Por Atilio A. Boron (*) – no seu blog, de 15/05/2017 – Tradução: Jadson Oliveira (o título, intertítulos, destaque acima e disposição dos parágrafos são desta edição; o título original é ‘Venezuela en la hora de los hornos’)

A dialética da revolução e o enfrentamento de classes que a impulsiona aproximam a crise venezuelana de seu inexorável desenlace. As alternativas são duas e somente duas: consolidação e avanço da revolução ou derrota da revolução. A brutal ofensiva da oposição – criminosa por seus métodos e seus propósitos antidemocráticos – encontra apoio nos governos conservadores da região e em desprestigiados ex-governantes, figurões que inflam seu peito em defesa da “oposição democrática” na Venezuela e exigem do governo de Maduro a imediata libertação dos “presos políticos”.

A canalha midiática e “a embaixada” fazem sua parte e multiplicam por mil as mentiras. Os criminosos que incendeiam um hospital para crianças fazem parte dessa suposta legião de democratas que lutam para depor a “tirania” de Maduro. Também o são os terroristas – pode-se chamá-los de outro modo? – que incendeiam, destroem, saqueiam, agridem e matam com total impunidade (protegidos pelas polícias das 19 prefeituras opositoras, dentre as 335 que há no país).

Se a polícia bolivariana – que não porta armas de fogo desde os tempos de Chávez – os captura se produz uma pasmosa mutação: a direita e seus meios de comunicação convertem esses delinquentes comuns em “presos políticos” e “combatentes pela liberdade”, como os que em El Salvador assassinaram monsenhor Oscar Arnulfo Romero e os jesuítas da UCA; ou como os “contras” que assolaram a Nicarágua sandinista financiados pela operação “Irã-Contras”, planejada e executada a partir da Casa Branca.

Fogo nas ruas e guerra econômica

Resumindo: o que está acontecendo hoje na Venezuela é que a contrarrevolução busca tomar as ruas – e tem conseguido em vários pontos do país – e produzir, junto com o desabastecimento programado e a guerra econômica, o caos social que culmine numa conjuntura de dissolução nacional e provoque o colapso da revolução bolivariana.

Refletindo sobre o curso da revolução de 1848 na França, Marx escreveu umas linhas que, com certos cuidados, bem poderiam se aplicar à Venezuela atual. Em seu célebre O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, descrevia a situação em Paris dizendo que “em meio a esta confusão indizível e estrepitosa de fusão, revisão, prorrogação de poderes, Constituição, conspiração, coalizão, emigração, usurpação e revolução, o burguês, arquejante, clama como louco por sua república parlamentar: «Antes um final terrível do que um terror sem fim!»” Seria imprudente não tomar estas palavras muito seriamente, porque é isso precisamente o que o império e seus sequazes tentam fazer na Venezuela: conseguir a aceitação popular de “um final terrível” que ponha término a “um terror sem fim.”

Com efeito, Washington aplica a mesma receita administrada em tantos países: organizar a oposição e convertê-la na semente da contrarrevolução; oferecer-lhe financiamento, cobertura midiática e diplomática, armas; inventar seus líderes, fixar a agenda e recrutar mercenários e bandidos da pior espécie para que façam a tarefa suja de “tocar fogo nas ruas” (“calentar la calle”) matando, destruindo, incendiando, saqueando, enquanto seus principais dirigentes posam para fotos com presidentes, ministros, o secretário geral da OEA e demais agentes do império.

Isto mesmo fizeram há uns anos atrás com grande êxito na Líbia, onde Washington e seus cupinchas inventaram os “combatentes pela liberdade” em Bengasi. A imprensa hegemônica difundiu esta falsa notícia aos quatro ventos e a OTAN fez o que era necessário. O resultado final: destruição da Líbia bombardeada impiedosamente durante meses, queda e linchamento de Kadafi, entre as risadas duma hiena chamada Hillary Clinton. Na Venezuela estão aplicando o mesmo plano, com gangues armadas que destroem e matam o que conseguem ante uma polícia pouco menos que indefesa.

Gangues criminosas nos bairros

Por comparação, a ofensiva imperial lançada contra Salvador Allende nos anos 1970 foi um jogo de crianças ao lado da inaudita ferocidade do ataque sobre a Venezuela. Não houve no Chile uma oposição que contratasse gangues criminosas para ir pelos bairros populares disparando impiedosamente para aterrorizar a população; tampouco um governo dum país vizinho que protegesse o contrabando e o paramilitarismo, e uma imprensa tão canalha e eficaz como a atual, que fez da mentira sua religião.

Dias passados publicaram a foto de um jovem vestido com uniforme de combate e jogando uma bomba molotov sobre um carro da polícia e no texto se fala da “repressão” das forças de segurança chavistas quando eram estas as que eram reprimidas pelos agressores! Esta imprensa proclama indignada que a repressão ceifou a vida de mais de 30 pessoas (Nota do tradutor: noticiário da Telesur de segunda-feira, dia 22, já indicava 45 mortos e mais de 900 feridos, a grande maioria vítima da ação de paramilitares e franco-atiradores, a serviço da ultradireita. Na onda de violência de 2014 morreram 43 pessoas), mas oculta deliberadamente que a maioria dos mortos são chavistas e que pelo menos cinco deles são policiais bolivarianos ultimados pelos “combatentes pela liberdade.”

Os incêndios, saques e assassinatos, a incitação e a efetivação de atos sediciosos são publicitados como a compreensível exaltação dum povo submetido a uma monstruosa ditadura que, curiosamente, deixa que seus opositores entrem e saiam do país à vontade, visitem governos amigos ou instituições putrefatas como a OEA para requerer que seu país seja invadido por tropas inimigas, façam periódicas declarações à imprensa, convalidem a violência desatada, se reúnam numa farsa da Assembleia Nacional, disponham dum fenomenal aparato midiático que mente como nunca antes, se desloquem a terceiros países para apoiar candidatos de extrema direita em eleições presidenciais sem que nenhum seja molestado pelas autoridades.

Curiosa ditadura a de Maduro!

Curiosa ditadura a de Maduro! Todos esses protestos e seus instigadores estão encaminhados a um só fim: garantir o triunfo da contrarrevolução e restaurar a velha ordem pré-chavista, mediante um caos cientificamente programado por pessoas como Eugene Sharp e outros consultores da CIA, que escreveram vários manuais de instrução sobre como desestabilizar governos. [1]

O modelo de transição pretendido pela contrarrevolução venezuelana não é o “Pacto de Moncloa” nem nenhum acordo pacífico institucional, mas a aplicação sem tirar nem por do modelo líbio. E, com certeza, não têm a menor intenção de dialogar, por mais concessões que sejam feitas.

Pediram uma Constituinte e quando ela é apresentada acusam Maduro de perpetrar um autogolpe de Estado. Violam a legalidade institucional e a imprensa do império os exalta como se fossem a quinta-essência da democracia. Não parece que a reabilitação de Henrique Capriles ou inclusive a libertação de Leopoldo López poderiam fazer com que uma parte da oposição admitisse sentar-se numa mesa de diálogo político, para sair da crise por uma via pacífica, porque a voz de comando está com o grupo insurrecional. A direita e o império exalam sangue e querem mais, e medidas apaziguadoras como essas os encorajariam ainda mais, embora admito que minha análise poderia estar equivocada.

De fora, tipos desprezíveis como Luis Almagro, que emergem cobertos de esterco das cloacas do império, orquestram uma campanha internacional contra o governo bolivariano. E países que jamais tiveram uma Constituição democrática e surgida duma consulta popular em toda sua história, como o Chile, têm a ousadia de pretender dar lições de democracia à Venezuela, que tem uma das melhores constituições do mundo e, ademais, aprovadas por um referendo popular.

Constituinte para evitar guerra civil

Maduro ofereceu nada menos do que convocar uma Constituinte para evitar uma guerra civil e a desintegração nacional. Se a oposição confirmasse nos próximos dias seu rechaço a este gesto patriótico e democrático, o único caminho que ficará aberto ao governo será deixar de lado a excessiva e imprudente tolerância com os agentes da contrarrevolução e descarregar sobre eles todo o rigor da lei, sem concessão alguma.

A oposição não violenta será respeitada na medida em que opere dentro das regras do jogo democrático e dos marcos estabelecidos pela Constituição; a outra, a ala insurrecional da oposição, deverá ser reprimida sem demora e sem clemência. O governo bolivariano teve uma paciência infinita ante os sediciosos, que nos Estados Unidos estariam presos desde 2014 e alguns, como Leopoldo López, por exemplo, condenado à cadeia perpétua ou à pena capital. Seu maior pecado foi ter sido demasiadamente tolerante e generoso com aqueles que só querem, a qualquer preço, a vitória da contrarrevolução. Mas esse tempo já acabou.

A inexorável dialética da revolução determina, com a lógica implacável da lei da gravidade, que agora o governo deve reagir com toda a força do Estado para impedir a tempo a dissolução da ordem social, a queda no abismo duma cruenta guerra civil e a derrota da revolução. Impedir esse “final terrível” do qual falava Marx antes do “terror sem fim.” Se o governo bolivariano adota este curso de ação poderá salvar a continuidade do processo iniciado por Chávez em 1999, sem se preocupar com a ensurdecedora gritaria da direita e seus desbocados midiáticos que, de todo modo e já há muito tempo, vêm latindo, mentindo e insultando a revolução e seus protagonistas.

Duas variantes

Se, ao contrário, titubeasse e caísse na imperdoável ilusão de que pode apaziguar os violentos com gestos patrióticos ou rezando Ave Marias, seu futuro teria o rosto da derrota, com duas variantes.

Uma, um pouco menos traumática, terminar como o Sandinismo, derrotado “constitucionalmente” nas urnas em 1989. Só que a Venezuela está assentada sobre um imenso mar de petróleo e a Nicarágua não, e por isso temos que afastar a miragem de que se os sandinistas voltaram ao governo os chavistas também poderiam fazê-lo, 10 ou 15 anos depois duma eventual derrota. Não! O triunfo da contrarrevolução converteria de fato a Venezuela no estado número 51 da União Americana, e se Washington durante mais de um século demonstrou não estar disposto a abandonar Porto Rico, nem em mil anos sairia da Venezuela caso seus peões derrotem o chavismo e se apoderem do país e sua imensa reserva petroleira. A revolução bolivariana é social e política e, não podemos esquecer, uma luta de libertação nacional. A derrota da revolução se traduziria na anexação informal da Venezuela aos Estados Unidos.

O modelo líbio

A segunda variante duma possível derrota configuraria o pior cenário. Incapaz de conter os violentos e de restabelecer a ordem e uma certa normalidade econômica, uma insurreição violenta aplicaria o modelo líbio para acabar com a revolução bolivariana. Não esquecer que agora a número dois do Comando Sul é nada menos do que uma personagem tão sinistra e inescrupulosa como Liliana Ayalde, que foi embaixadora dos Estados Unidos no Paraguai e Brasil e que, em ambos os países, foi a artífice fundamental de golpes de Estado. Uma mulher que não tremeria as mãos na hora de lançar as forças do Comando Sul contra a Venezuela, derrubar seu governo e, como na Líbia, fazer com que uma turbamulta organizada pela CIA termine com o linchamento de Maduro, como aconteceu com Kadafi, e o extermínio físico dos principais líderes da revolução.

Os dirigentes bolivarianos, a obra de Chávez e a causa da emancipação latino-americana não merecem nenhum destes dois desenlaces, nenhum dos quais é inevitável se se relança a revolução e se o governo aplasta sem hesitações as forças da contrarrevolução.

[1] O mais completo desses infames manuais escrito por Eugene Sharp é Da Ditadura à Democracia, publicado em Boston pela Albert Einstein Institution, uma ONG ligada à CIA. Sharp se considera o criador da teoria da “não violência estratégica”. Para compreender o que isto significa, e para compreender também o que está ocorrendo hoje na Venezuela, aconselho veementemente ler esse livro e sobretudo o Apêndice, onde seu autor enumera 197 métodos de ação não violentos, entre os quais se incluem “forçar bloqueios econômicos”, “falsificar dinheiro e documentos”, “ocupações e invasões”, etc, etc. Todas ações “não violentas”, como se pode ver.

(*) Atilio A. Boron é cientista político e sociólogo argentino, que se diz latino-americano por convicção.

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