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“Defendemos a municipalização de todos os serviços essenciais”, afirma Cyro Garcia do PSTU

cyroPraticamente sem voz na mídia e fora do debate dos candidatos na TV, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) tem consciência das suas limitações nas eleições cariocas mas não abre mão de colocar em debate suas ideias. Seguindo a linha marxista, o partido faz oposição à esquerda desde sua fundação em 1993. Seu lema nas campanhas de 2016 no Rio é “Contra Burguês Lute e Vote 16”, numa linha clara em defesa dos trabalhadores. Está com 1% nas pesquisas do Data Folha e do Ibope.

Seu candidato, Cyro Garcia, é formado em direito pela UFRJ e tem mestrado e doutorado na UFF. Continua dando aula numa universidade particular na Baixada Fluminense durante a campanha eleitoral. Iniciou sua militância política na universidade contra a ditadura militar, e depois passou no concurso para o Banco do Brasil onde se engajou na oposição bancária. Teve contato com a Liga Operária, foi presidente do Sindicato dos Bancários e deputado federal, além de atuar na executiva nacional da CUT por três gestões. É filiado ao PSTU desde o nascimento do partido.

Na entrevista ao Fazendo Media, Garcia defende a municipalização dos serviços essenciais da capital Fluminense. Educação, saúde, moradia e saneamento, dentre outros serviços públicos, não devem ser entregues à iniciativa privada, segundo ele. Romper com a Lei de Responsabilidade Fiscal, que atende o interesse dos empresários e do mercado financeiro, para ele, é o caminho para se obter recursos para implementação de um programa a serviço da classe trabalhadora e dos oprimidos.

O PMDB tem integrantes do partido envolvidos em corrupção a nível nacional e estadual, e tem o prefeito aqui no Rio. Como você enxerga o poder deles na máquina pública carioca?

Essa sempre foi sua característica desde a origem no antigo MDB na época da ditadura militar. A Arena pegou os setores mais conservadores ligados às oligarquias rurais, os coronéis do nordeste, e a burguesia urbana citadina estava com o MDB. Depois teve rachas com o PSDB, que foi representar a burguesia financeira e a indústria paulista. Mas o empresariado que sempre dominou o PMDB sempre foi muito encrustado no Estado com as empreiteiras, as obras, etc. É a tradição e vocação deles, e aqui no Rio sempre teve muita força. Sempre houve uma série de parlamentares a nível nacional e estadual envolvidos na corrupção, a diferença é que agora há investigação e eventuais punições. Esse escândalo da Lava Jato engordando o lucro ilícito de uma série de empreiteiras existia também na época da ditadura. Um trabalho de doutorado da UFF mostra que as quatro maiores empreiteiras do Brasil nasceram durante a ditadura. São as grandes protagonistas da Lava Jato junto ao PMDB.

Existe também um momento de questionamento muito grande ao regime, por isso a nossa campanha está a serviço da luta para denunciar essa situação. Óbvio que a campanha está sendo atravessada pelo impeachment, mas não somos partícipes da tese de golpe em relação à Dilma. Foi um governo que perdeu sua legitimidade, sua base popular de apoio, e defendia setores da burguesia. O grande mérito que o PT tinha e o fez chegar ao governo era o controle sobre o movimento social organizado: UNE, CUT, MST, etc. Era mais fácil para eles implementar uma agenda neoliberal, já que tinham origem na classe trabalhadora. É uma luta entre dois blocos burgueses, uma luta de um governo que perdeu legitimidade e um que nunca teve. Então a nossa campanha também está a serviço de denunciar isso. Só tenho 6 segundos na televisão, mas faço questão de colocar a questão do Fora Temer e todos eles.

"Defendemos eleições gerais com novas regras, e não vai ser naquele parlamento de Cunhas e afins que isso será votado", afirmou o candidato. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

“Defendemos eleições gerais com novas regras, e não vai ser naquele parlamento de Cunhas e afins que isso será votado”, afirmou o candidato. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Defendemos eleições gerais com novas regras, e não vai ser naquele parlamento de Cunhas e afins que isso será votado. Só com o povo na rua, então estamos a serviço da unificação das lutas e da construção de uma greve geral no país. Para derrotar o ajuste fiscal e esses ataques que estão sendo feitos por parte do Temer. Temos que lutar contra tudo isso que vai atacar os interesses da classe trabalhadora brasileira. Esses ataques começaram no governo Dilma, e o Temer está apenas intensificando a pauta.

Você e alguns candidatos ficaram de fora do debate na TV, o que acha sobre isso?

É sintomático, porque a gestão da prefeitura é do PMDB com aliança do PT e PCdoB. Os setes candidatos tinham compromisso com essa administração: Pedro Paulo candidato oficial da reeleição, Osório e Índio da Costa ex-secretários, Jandira faz parte da coligação junto ao PT, que era o partido do Molon, recém filiado na REDE. Um debate entre iguais, farinha do mesmo saco, e quem tem uma proposta de questionamento a tudo isso ficou de fora. Esse governo Temer é frágil, assim como o do Dorneles e Pezão. O caos está instalado no Estado, e se as direções dos movimentos assumem a sua responsabilidade podemos derrubar o governo federal e estadual.

Você falou sobre a necessidade de novas regras eleitorais, como é disputar uma candidatura no Rio sendo um partido pequeno contra a força do PMDB?

É complicado, ainda que o candidato deles não esteja bem nas pesquisas. Mas vão entrar com essa máquina poderosa, a subprefeitura e obras de maquiagem nas periferias, coisas que não são supostamente permitidas pela legislação mas acontecem. Mas sua campanha está fragilizada: vulnerabilidade do PMDB, que junto ao PT e PP são os mais citados na Lava Jato; o Sérgio Cabral, que todos sabem que é ligado ao Paes; as empresas que participaram dos esquemas do Estado também têm relações com o município; e seu candidato é assumidamente agressor de mulher. Essas coisas complicam sua candidatura, mas não podemos subestimá-la por causa da máquina e o maior tempo na televisão. E essa coisa do clientelismo inculcada na cabeça do povo, de que política é uma troca de interesses, um toma lá da cá, uma reprodução do coronelismo. Principalmente na zona oeste, nas periferias e comunidades, então é uma política muito agressiva onde o senso crítico das pessoas é completamente abstraído.

Por isso há uma educação ineficiente, e a burguesia quer uma escola sem partido para ser mera reprodutora de mão de obra e não formar um cidadão com consciência em condições de avaliar a sociedade em que ele vive, criticá-la e participar da sua transformação. Então essa resposta não pode ser dada só no território eleitoral, porque é um jogo de cartas marcadas. O debate já foi categórico, somos onze candidatos e a oposição ficou de fora. Essa regra nova imposta pelo STF abre a possibilidade da participação dos outros, mas fica na mão das emissoras. Na Argentina, por exemplo, o debate é promovido pela televisão pública e as empresas privadas transmitem com todos os candidatos em igualdade de condições: isso é democrático. Na França, o tempo é igual a todos os partidos na televisão. Aqui tenho 6 segundos, é ridículo.

Qual a pauta prioritária na sua campanha para o Rio de Janeiro?

O lema da nossa campanha é “Um Rio de Janeiro para os trabalhadores”, porque entendemos que a cidade tem que estar a serviço dos que constroem a riqueza. E essa cidade está a serviço dos empresários e dos megaeventos, favorecendo determinados setores empresariais, financeiros, empreiteiras. Precisamos romper com essa lógica: romper com o sistema financeiro rompendo com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Essa Lei na verdade é de irresponsabilidade social, porque privilegia a arrecadação da prefeitura para o pagamento das dívidas do sistema financeiro e dos seus fornecedores em detrimento das questões essenciais de responsabilidade do Estado: educação, saúde, transporte, geração de emprego, etc.

Defendemos a municipalização de todos os serviços essenciais, inclusive rompendo todos os contratos com as Organizações Sociais de Saúde (OSS), e acabar com qualquer tipo de parceria público privada na educação. Além de expropriar sem indenização as empresas de transportes: a Fetranspor já lucrou mais que o suficiente roubando da classe trabalhadora e prestando um péssimo serviço. Não vamos bancar isso numa Câmara municipal em que a maioria dos eleitos é financiada por eles, então só com a organização popular e a luta dos trabalhadores. Defendemos os Conselhos Populares nas escolas, fábricas, bairros, através das associações de moradores. Criar ainda uma Empresa de Obras Públicas para realizar as obras necessárias. O Rio é onde tem o maior contingente de desemprego por causa da crise do Comperj e dos estaleiros, e essa empresa pode oferecer emprego, atacar carências de construção de escolas e hospitais na zona oeste e próximo das populações carentes e comunidades onde esses serviços não existem. Saneamento básico, pois nossa cidade é cartão postal do mundo só até um pedaço da zona norte que vai até o Méier.

"É um absurdo o que se gastou na Copa do Mundo e Olimpíadas com verbas públicas no Rio de Janeiro", criticou Garcia. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media

“É um absurdo o que se gastou na Copa do Mundo e Olimpíadas com verbas públicas no Rio de Janeiro”, criticou Garcia. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media

O estado está falido e teve as Olimpíadas com muita grana e obras, mas como fica daqui para frente?

É um absurdo o que se gastou na Copa do Mundo e Olimpíadas com verbas públicas no Rio de Janeiro. Um evento privado, o COI é uma entidade privada, e do ponto de vista do Estado você tem servidores com salários atrasados, aposentados, então é um absurdo. Sem falar da falência dos serviços essenciais, se você precisar de um hospital público está fadado à morte lenta porque não tem as mínimas condições. Então as verbas deveriam ter sido destinadas à educação, saúde e questões já mencionadas, como o déficit de moradia popular. Segundo a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, o Rio de Janeiro é o município mais endividado do país. Agora tem as Paraolimpíadas e a ilha de fantasia vai embora e fica uma dívida monstruosa. O prefeito que ganhar no Rio de Janeiro vai passar pelo que passou o Estado.

Embora a segurança não seja atribuição municipal, muitos candidatos estão falando a respeito. Qual a sua opinião sobre o tema?

A política de segurança tem que ser modificada, o prefeito não pode se omitir pois impacta todos os moradores da cidade. É uma política fascista, genocida, racista, homofóbica, que institui uma pena de morte informal à juventude negra que mora nas periferias e favelas independente de estar envolvida com o tráfico. Basta ser jovem, preto e morar na favela que você está condenado à pena de morte informal porque há um genocídio em nosso país. Precisamos de oferta de emprego para essa juventude, e descriminalizar as drogas: o tráfico de drogas alimenta o tráfico de armas. As pessoas não morrem de overdose, mas de troca de balas entre a polícia e facções criminosas e as disputas de territórios. Somos a favor de uma só polícia civil com delegados eleitos pela comunidade e com direito a sindicato, greve e com dignificação salarial para acabar com essa estrutura institucional permeada pela corrupção. E sou totalmente contrário ao armamento da Guarda Municipal, que vem cotidianamente reprimindo os camelôs, que nada mais são além de trabalhadores desempregados, que estão na rua lutando para garantir uma vida para suas famílias Temos nossas ideias e não teremos como explicitá-las em 6 segundos na televisão.

Por que o campo progressista, crítico e de esquerda não veio com uma frente unificada para concorrer com o PMDB?

Quando falamos em campo progressista, é exatamente o que está inviabilizando uma aliança com o PSOL. Temos votado nacionalmente dentro desse marco institucional uma aliança com o PSOL e o PCB, mas definimos ter uma candidatura única nas capitais. Em 2006 apoiamos a Heloisa Helena e em 2008 o Chico Alencar, mas mudamos de 2013 para cá a partir da jornada de junho e manifestações nas ruas. Há uma nova correlação de forças com a classe trabalhadora dos explorados e oprimidos, tendo alguns avanços nas suas lutas. Isso causou uma polarização social, então a direita também começou a mostrar suas garras porque se sentiu ameaçada.

Achamos que com essa conjuntura o governo do PT, que era também PMDB, PCdoB e companhia, teve oportunidades nas mobilizações. O povo estava na rua pedindo educação e saúde padrão Fifa, a questão das tarifas que foi o que estourou, então pôde sair daquela cantilena da governabilidade. De ter que se alinhar com os partidos conservadores para conseguir uma maioria no Congresso: daí governa para os empresários, a mesma coisa que os outros partidos fizeram. O governo Lula e o governo Dilma seguiram a implementação do ideário neoliberal, apenas pegou uma conjuntura de crescimento econômico que permitiu o Bolsa Família ser maior que o Comunidade Solidária da Ruth Cardoso. Mas a essência é a mesma.

"um dos grandes problemas em nosso país é a falta de democratização dos meios de comunicação", defendeu. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media

“um dos grandes problemas em nosso país é a falta de democratização dos meios de comunicação”, defendeu. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media

A crise econômica internacional que começou no centro do capitalismo nos EUA com as hipotecas em 2008 mudou de centro, veio a crise fiscal na Europa até chegar à América Latina. A resposta da Dilma é a clássica da burguesia, fazer com que os trabalhadores paguem pela crise. Sua primeira medida atingiu parcela considerável da classe trabalhadora até chegar ao desemprego. O empresário não aceita diminuir suas margens de lucro, então demite os trabalhadores. Então ela foi perdendo apoio, base popular, legitimidade e serventia para a burguesia. O PSOL embarcou de mala e cuia na defesa da Dilma e comprou a história do golpe, mas nós desde o início somos o Fora Todos, Eleições Gerais.

O PSOL faz aliança com partidos da base, tanto é que houve uma reunião do Molon, Jandira e Freixo para não haver agressões e uma eventual aliança no segundo turno. São partidos que estão participando do governo desde o Lula, e não consideram os erros do PT. Achamos que estão colhendo o que plantaram. E nosso partido defende o marxismo como um instrumental teórico para transformação da realidade completamente concentradora de capital, de exclusão social e formação de mazelas aos setores oprimidos. O que se conformou foram dois campos burgueses se digladiando, uns com Dilma e outros com Temer, e esses setores que estão no nosso campo de aliança optaram pela luta contra o golpe. Vemos a saída dessa crise numa perspectiva da classe trabalhadora. O PSOL defende um programa que não rompe com o sistema financeiro, as empreiteiras, etc, e é um grande erro esse negócio do PT de governar para todos. O Freixo não falou nem vai falar as coisas que devem ser ditas à classe trabalhadora. Hoje o PSOL está coligado em muitos estados do país com o PMDB e PSDB, que eles chamam de golpista. Tudo isso faz com que tenhamos uma candidatura própria e avaliamos que o programa do PSOL repete os erros do PT.

Vocês têm uma crítica forte à mídia, pesa na campanha municipal do Rio a cidade ter o maior meio de comunicação do país alinhado com o governo local?

Com certeza, um dos grandes problemas em nosso país é a falta de democratização dos meios de comunicação. É engraçado quando os petistas falam em mídia golpista, porque ficaram quatro mandatos e não fizeram nada. Na Argentina a Kirchner pelo menos fez um enfrentamento com o Clarín, que é o Globo de lá. O Hugo Chávez comprou uma briga com a imprensa na Venezuela, e aqui o Lula e a Dilma tomavam café com a família Marinho. Inclusive os meios de comunicação alternativa, como as rádios comunitárias, tiveram repressão como nos governos anteriores do PSDB. As grandes corporações estão totalmente comprometidas e fazendo o jogo do empresariado. Claro que isso interfere, a própria cobertura é diferenciada. Até agora na campanha só tive 40 segundos na Globo e darei uma entrevista pra Band Rio.. Temos uma cobertura de campanha facciosa, dão o diário de campanha dos candidatos da burguesia e quase não aparecemos. Apesar disso, nosso grande trunfo é a internet, as mídias sociais, que fazem sua ideia chegar mais e rapidamente que um panfleto. Temos condições da mídia alternativa pautar a grande mídia, como aconteceu nas manifestações.

Mas o processo eleitoral fruto de toda essa corrupção e roubalheira, não é algo que empolgue o público. Existe uma crise do regime representativo na democracia, as pessoas não se sentem representadas. Fruto daquele show de horrores da votação de impeachment na Câmara, que trouxe à luz quem são as pessoas que estão lá representando o povo. Então não há entusiasmo pela eleição, o índice de voto nulo é talvez o maior da história. E o espaço que temos nas mídias alternativas se torne limitado também, pela falta de engajamento da sociedade. Como os meios de comunicação estão nas mãos da burguesia facilita e muito as candidaturas oficiais. Sabemos que eleições são um jogo de carta marcadas, e por isso falamos que não muda a vida de ninguém e o nosso lema é Contra Burguês Lute e Vote 16. Lutar é importante e é a essência do que pensamos.

Eduardo de Sá é jornalista.

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