Da esquerda para direita: Mauricio Stycer, Ricardo Melo, Tereza Cruvinel e Marina Amaral. Foto: Casa Pública.

Destino da EBC e da comunicação pública em debate

Da esquerda para direita: Mauricio Stycer, Ricardo Melo, Tereza Cruvinel e Marina Amaral. Foto: Casa Pública.

Da esquerda para direita: Mauricio Stycer, Ricardo Melo, Tereza Cruvinel e Marina Amaral. Foto: Casa Pública.

“Para aonde vai a Empresa Pública de Comunicação”, esse foi o tema do último debate realizado pela Agência Pública de Reportagem e Jornalismo Investigativo. Recentemente o governo Temer exonerou o presidente da EBC e, por medida provisória (MP), alterou o estatuto da empresa promovendo diversas mudanças na comunicação pública. O evento ocorreu no último sábado (24/09), na sede da organização em Botafogo, na zona sul carioca, e contou com a participação dos ex-presidentes da EBC, os jornalistas Ricardo Melo e Tereza Cruvinel, além de Mauricio Stycer, crítico de TV na Folha de São Paulo e no portal UOL.

Após quase duas décadas e meia nas Organizações Globo, a jornalista e analista política Tereza Cruvinel foi presidente da EBC durante o governo Lula e se dedicou à construção da TV Brasil. Voltou a escrever no Correio Brasiliense, chegou a passar pela Rede TV, e hoje é colunista do portal Brasil 247. Segundo ela, a comunicação pública no Brasil é tardia e com pouca qualidade por conta do patrimonialismo, a falta de limites entre o público e o privado: os empresários da comunicação sempre se relacionaram com os meios para influir poder e controle da opinião.

Tereza Cruvinel, ex-presidente da EBC, falando sobre a trajetória da comunicação pública no Brasil. Foto: Casa Pública.

Tereza Cruvinel, ex-presidente da EBC, falando sobre a trajetória da comunicação pública no Brasil. Foto: Casa Pública.

Ao relembrar o início da televisão no Brasil, ela voltou à década de 1950 quando o então presidente Getúlio Vargas pensou uma rede de televisão chamada TV Nacional. Nesse período aparece os Diários Associados de Assis Chateaubriand, que havia o combatido no Estado Novo, mas na campanha de 50 lhe trouxe à tona novamente com a entrevista de Samuel Wainer: “Eu voltarei como líder de massas”, a histórica entrevista realizada em São Borja (RS).

“Com esse apoio Chateaubriand pede a concessão e vem a TV Tupi engavetando a TV Pública. Chateaubriand rompe e Samuel Wainer cria o jornal Última Hora para apoiar Getúlio, nisso tudo a comunicação pública dançou. Depois vem Juscelino criando um canal que hoje é a TV Nacional, que fez a cobertura da inauguração de Brasília. Não fez a expansão dessa rede por pressão do empresariado, e depois vem a ditadura e o nascimento das Organizações Globo. Optaram por TVs educativas estaduais, com as quais fizemos contratos de parcerias com a TV Brasil na minha gestão. Mas nos estados são individualizadas, não formam redes, cada uma é de um governador. Por conta desses vícios da nossa elite política e empresarial, não desenvolveu”, explicou.

Após passar pela Folha de São Paulo, SBT, Globo e Valor Econômico, dentre outros veículos, o jornalista Ricardo Melo assumiu a presidência da EBC. Foi indicado pela então presidenta Dilma Rousseff antes da votação do impeachment, e logo depois foi um dos primeiros cargos exonerados na gestão de Michel Temer. Segundo ele, nesse período foram nomeados na diretoria executiva quatro pessoas alinhadas ao novo governo inviabilizando sua gestão. Contratos de jornalistas e analistas, como Emir Sader e Luis Nassiff, dentre outros, além de programas de debates, foram cancelados.

Participação de conselheiros da EBC cassados durante o debate. Foto: Casa Pública

Participação de conselheiros da EBC cassados durante o debate. Foto: Casa Pública

“Fizemos o máximo que dava, tendo em conta que o destino da empresa estava vinculado ao ambiente político. A questão da comunicação pública tem tudo a ver com o amadurecimento das democracias pelo mundo. A BBC está fazendo 95 anos, por exemplo, a comunicação pública tem que ser absorvida pela sociedade quando está amadurecida politicamente. Se isso não acontece democraticamente, não há espaço para ela. E no Brasil o modelo que temos é oligarca na produção com algumas famílias, e praticamente monopolista na opinião com raríssimas exceções”, disse Melo.

Para ele, a maioria das opiniões nos meios privados está de acordo com o interesse, bom humor, estado de espírito ou caráter do dono do veículo. O jornalista está muito preocupado com o que chama de retrocesso na democracia e no ambiente político em geral, ao citar exemplos de mudanças do novo governo nas leis trabalhistas e no sistema de saúde. Foi modificado por medida provisória (MP) no segundo dia do Temer o estatuto da empresa que garantia dois elementos centrais na EBC: o conselho curador com representantes da sociedade e o financiamento independente para promoção da radiodifusão pública, complementou.

“É para acabar com qualquer produção de liberdade de expressão e opinião, que seja desvinculada da máquina estatal. Disseram que ela estava sendo aparelhada, o que á uma mentira. Quando foi criada tinha 57% de funcionários de carreira, e hoje são 96% de concursados. Agora que estão aparelhando.Hoje a EBC tem R$ 2 bilhões e pouco parados na justiça e R$ 800 milhões retidos indevidamente pelo governo, inclusive pelos do PT, para fazer superávit primário deixando à mercê dos humores do governo. Essa medida provisória acaba com a comunicação pública, todos os poderes estão na mão do presidente”, criticou.

Audiência e comunicação pública

Mauricio Staycer, crítico de televisão na Folha de São Paulo e no UOL. Foto: Casa Pública

Mauricio Staycer, crítico de televisão na Folha de São Paulo e no UOL. Foto: Casa Pública

Para o jornalista Mauricio Stycer, crítico de televisão na Folha de São Paulo e no UOL , ficou bastante clara nessa transição de governo a importância da EBC. A empresa se tornou um alvo a ser combatido um pouco por causa dos seus vícios de origem, acrescentou. Segundo ele, o tema da audiência em relação às pesquisas do Ibope é complexo, porque a medição está ligada à publicidade dos mercados das TVs privadas.

“É feita para balizar valores de publicidade. A TV Brasil está sendo comparada às Tvs abertas, mas é muito complexo porque elas lutam pela sobrevivência baseadas nas audiências para ter seus recursos. É tacanha essa comparação, porque ela deve buscar públicos que não estão nas TVS comerciais. O peso tem de ser diferente, a programação depende de anunciantes para garantir algum programa. Quando a EBC começou a transmitir o futebol da série C, por exemplo, não interessa ao mercado mas teve jogos que bateu recorde de audiência. Sinalizou pra um vazio de um nicho a ser ocupado, e isso precisa ser enxergado”, explicou Stycer.

A TV Brasil sempre teve audiência baixa, mas se comparada à Rede TV, por exemplo, disse Tereza Cruvinel, está quase igual. E sempre que tem momentos de audiência de pico, complementou, nunca é dada uma nota na mídia sobre o assunto. Em sua gestão foi encomendada à Data Folha uma pesquisa, mas como a TV Brasil não tem uma rede própria nacional não dá para medir. A Anatel, exemplificou a jornalista, forneceu o canal 62 em São Paulo, que é impraticável, e houve um esforço de constituir uma Rede a partir das TVs estaduais que estão sujeitas aos governadores. Mas não foi possível, porque e o Ibope só mede a nível estadual, e a Sky e outras TVs a cabo não transmitem a Tv Brasil.

“Colocamos a televisão na parabólica, custava caro no satélite, e foi uma luta insana com as operadoras de TV a cabo para colocar a TV Brasil. Existimos com 4 canais próprios, mas o Lula não desapropriou canais nas cidades para dar a TV Brasil, então faltou canal. Com esse perfil de distribuição do seu produto não dá para medir, então contratei a Data Folha na parabólica e deu uma audiência surpreendente. Divulgamos para mídia e não saiu uma linha. Mesmo sendo alta ou baixa, audiência não é o objetivo primordial duma emissora pública e sim um espaço da pluralidade e complementaridade: palavras da nossa constituição”, destacou Cruvinel.

Jornalismo independente?

Visão geral do debate promovido pela Agência Pública: Foto: Casa Pública

Visão geral do debate promovido pela Agência Pública: Foto: Casa Pública

A TV Brasil está sendo bombardeada porque se tornou vulnerável por conta de uma imagem negativa que lhe foi atribuída graças à sanha da mídia privada sempre apostando contra ela, criticou a ex-presidente da EBC. São muitas as matérias sobre o canal, e todas falando negativamente. Se não tem audiência e não concorre às verbas de publicidade, por que tanto ódio?,questionou a jornalista.

“Só pode ser essa coisa da elite empresarial brasileira do pensamento único com canais sacramentados para expressá-lo. Um grande pacto de elite. Falavam que era TV do Lula, aí a tática foi relegar a EBC à irrelevância. Depois tinha o Franklin Martins e eu como figuras imperdoáveis, porque saímos de posições importantes da mídia privada”, concluiu.

Todo jornalismo de TV prevê coisas básicas que estão nos manuais, como ser plural, isento, crítico, dentre outros elementos para dar qualidade às notícias, mas não basta ouvir os dois lados numa TV Pública, afirmou Ricardo Melo.É preciso ver o ambiente geral da mídia, levar em conta uma série de forças sociais, pessoas influentes, que muitas vezes representam grandes segmentos e não têm voz nos meios comerciais. Nesse processo de impeachment, por exemplo, artistas, sem terra, movimentos, dentre outros setores, não tinham espaço na mídia.

“Isso não significa que não fomos atrás de setores a favor do impeachment: FHC, Aécio, Tasso Jereissati, etc. Eles não foram, queriam deslegitimar a TV Brasil. Sua presença ia mostrar um espaço plural sem seleção partidária. Se comprometeram e depois deram as mais variadas desculpas. Mesmo assim tinha juristas dos dois lados, vários setores. Porque a Globo já faz isso de falar meia hora com um lado e dar um minuto pro outro”, afirmou.

A Agência Brasil, por exemplo, canal de notícias da EBC na internet, tem um papel que as pessoas não conseguem dimensionar, continuou Melo. Atende centenas de sites, inclusive da grande mídia, com notícias de credibilidade gratuitas. E foge da ditadura SP-RJ, imposta pela mídia comercial. “O que está sendo desmontada não é a EBC, é uma rede pública de comunicação muito maior que RJ e SP onde estão as mídias privadas e o dinheiro. A Agência Brasil teve matéria censurada, tenho medo de acontecer isso no rádio. No Amazonas e outros rincões o que dá é Radio Nacional, se não essas pessoas estariam completamente esquecidas e furtadas de saber o que está acontecendo. Isso tem que ser levado em conta, porque temos um sistema que transforma a opinião do Brasil em Rio e São Paulo”, ressaltou.

“A EBC precisa passar por um processo de discussão, tem apenas 8 anos, é uma criança. Tenho várias restrições pela sua constituição, tem muitos vícios de uma empresa estatal. Essa discussão é urgente, mas tem que ter audiências públicas, ir às universidades, movimentos sociais, é um processo amplo e não uma canetada de medida provisória. Precisa ser reformulada, mas num processo de discussão e num ambiente de democracia. A canetada é acabar com a comunicação pública no Brasil”, finalizou Ricardo Melo.

Eduardo de Sá é jornalista.

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