Rafael Correa, ao lado de Jorge Glas (vice-presidente reeleito) e Lenín Moreno (Foto: jornal El Telégrafo)

Equador: o povo disse “nem um passo atrás” – por Atilio Boron

Rafael Correa, ao lado de Jorge Glas (vice-presidente reeleito) e Lenín Moreno (Foto: jornal El Telégrafo)

Rafael Correa, ao lado de Jorge Glas (vice-presidente reeleito) e Lenín Moreno (Foto: jornal El Telégrafo)

Uma derrota das forças progressistas no Equador reforçaria a direita regional e aceleraria a modificação regressiva do mapa sociopolítico sul-americano, fortalecendo os frágeis governos da Argentina e do Brasil, protagonistas fundamentais do atual retrocesso político.

Por Atilio A. Boron (*), de Quito – do seu blog, de 03/04/2017 – Tradução: Jadson Oliveira (a disposição dos parágrafos é desta edição)

A vitória obtida por Aliança País (partido governista) no segundo turno de 2 de abril confirma que o povo equatoriano soube discernir o que estava em jogo: a continuidade de um governo que marcou um antes e um depois na história contemporânea do Equador ou o salto suicida ao vazio, imitando a tragédia argentina.

Lenín Moreno e Jorge Glas representam a consolidação dos avanços conseguidos em numerosos campos da vida social durante 10 anos sob a liderança de Rafael Correa; seu adversário, Guillermo Lasso, personificava o retorno da aliança social que tradicionalmente havia governado o Equador com as desastrosas consequências por todos conhecidas.

Um país com grandes maiorias nacionais secularmente submetidas à pobreza, com índices aberrantes de desigualdade e exclusão econômica, social e cultural. Uma nação vítima da insaciável voracidade de banqueiros e latifundiários que saqueavam impunemente uma população que mantinham como refém e que, em seu desenfreio, provocaram a megacrise econômica e financeira de 1999. Num espetáculo de falsificação dos fatos históricos denominaram essa tremenda crise, amavelmente, “feriado bancário”, apesar de que em seu turbilhão acabou com a moeda equatoriana, que foi substituída pelo dólar estadunidense, e provocou a debandada de uns dois milhões de equatorianos que fugiram para o exterior a fim de se salvarem da hecatombe.

São vários os fatores que explicam este alentador resultado para o Equador e para toda América Latina.

Um: as traumáticas lembranças de 1999 e o descaramento com que os agentes sociais e as forças políticas daquela crise – sobretudo Guillermo Lasso – propunham a adoção das mesmas políticas que a tinham originado. A candidatura da direita manifestou que ampliaria as margens de autonomia das forças do mercado, reduziria o gasto público, privatizaria a saúde e a educação, baixaria os impostos e acabaria com a hidra de sete cabeças do suposto “populismo econômico”. A política social sofreria cortes porque, sem dizer como, Lasso assegurava que criaria um milhão de novos empregos em quatro anos, e teve o cuidado de registrar em cartório esta promessa no programa de governo que, tal como exige a legislação eleitoral, inscreveu ante um tabelião.

Na área internacional, Lasso declarou que fecharia a sede da UNASUR (União das Nações Sul-americanas, cuja sede fica em Quito), entregaria Julian Assange às autoridades britânicas e se afastaria de todos os acordos e organismos regionais como a UNASUR, a CELAC e a ALBA.

Dois: o intenso trabalho de campanha feito pela chapa Moreno-Glas, que permitiu estabelecer um profundo vínculo com a base social do correísmo e levar a cabo um extenuante percurso pelos 24 estados do país, garantindo uma presença nacional e organizacional cujos frutos foram evidentes na hora de abrir as urnas.

Outro fator explicativo, o terceiro, foi o apoio de Correa e seu denodado esforço para coroar, com uma vertiginosa dinâmica governamental, a campanha da chapa governista. Se algo fosse necessário para ratificar o caráter excepcional de sua liderança, aí está: uma vitória inédita na história equatoriana porque nunca antes um governo tinha conseguido ser reeleito ao mudar a candidatura presidencial.

Nesta linha, temos de recordar que no primeiro turno a Aliança País havia obtido a maioria absoluta dos deputados da Assembleia Nacional e que 55% dos eleitores votaram a favor da proposta do governo de proibir que os altos dirigentes e governantes possam ter dinheiro investido em paraísos fiscais. Em outras palavras, apoio interno na área institucional e no plano da sociedade civil não faltará ao novo presidente.

Nos dias anteriores à votação predominava nos meios ligados à Aliança País uma profunda preocupação. As pesquisas não estavam mostrando os resultados esperados e colocavam em questão o entusiasmo militante com que Moreno e Glas eram recebidos em todo o país. A campanha de terrorismo midiático foi de tal magnitude e baixeza moral – e este é outro fator que temos de levar em conta – que fez com que o votante aliancista temesse manifestar-se diante das perguntas dos entrevistadores. As acusações lançadas contra Correa e Glas eram tão terríveis quanto carentes por completo de substância.

O fato significativo no caso é que a direita acusava nos meios de comunicação, mas se abstinha de fazer uma denúncia na Justiça. Como disse um dos observadores da campanha em reunião com representantes de CREO-SUMA (coligação eleitoral da oposição): “Não queremos fofocas, apresentem dados concretos”. Nunca o fizeram. Mas, pressionada e intimidada por esta artilharia midiática (que contou com a ativa colaboração de alguns pseudo-jornalistas argentinos, na realidade agentes de propaganda a serviço das piores causas) e pelas veladas ameaças dos profetas da restauração, uma parte significativa dos entrevistados se definiam como “indecisos” quando na realidade não o eram. A verdade saiu à luz a partir do escrutínio.

Numa matéria anterior dizíamos que esta eleição seria a “batalha de Stalingrado”, porque do seu desenlace dependeria o futuro do Equador e da América Latina. Uma derrota reforçaria a direita regional e aceleraria a modificação regressiva do mapa sociopolítico sul-americano, fortalecendo os frágeis governos da Argentina e do Brasil, protagonistas fundamentais do atual retrocesso político.

A vitória da Aliança País refuta a tese de alguns analistas agourentos que se apressaram a decretar o “fim do ciclo progressista” enquanto o finado continuava respirando. Tal vitória confirma que a luta continua, que os tropeços experimentados em datas recentes são apenas isso, que o velho topo da história continua seu labor e que aqui, na metade do mundo, um povo consciente tomou o futuro em suas mãos e disse “nem um passo atrás”. Como afirmara Correa, fizemos muito porém resta muito mais por fazer. Ter ganho esta batalha crucial é uma grande notícia não só para os latino-americanos mas para todos aqueles que, no resto do mundo, lutam para acabar a barbárie neoliberal. Saudações, Equador!

(*) Atilio A. Boron é sociólogo e cientista político argentino. Ele se diz “latino-americano por convicção”.

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