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“Esse modelo deles é tipicamente neoliberal, vai destruir a economia brasileira para poder vendê-la barato”, diz Paulo Henrique Amorim

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Paulo Henrique Amorim é jornalista com um currículo notório e extenso. Iniciou sua carreira em 1961, no jornal A noite. Foi repórter e correspondente internacional da revista Realidade e em seguida da revista Veja. Trabalhou também nas emissoras, Rede Globo, Manchete, Bandeirantes.  Atualmente, além de apresentador do programa Domingo Espetacular, na Rede Record, dirige o blog Conversa Afiada.

Com a simpatia e o estilo que lhe são peculiares, o jornalista concedeu uma breve entrevista ao Fazendo Media, antes do debate entre ele e o também jornalista Mino Carta, da Revista CartaCapital, que ocorreu no último dia 6, na Praça São Salvador, no bairro do Flamengo, Rio de Janeiro.

Durante a conversa, ele defendeu uma frente ampla com diversos setores da sociedade, em contraposição ao modelo de cortes de direitos imposto pelo grupo que assumiu o poder por meio de um golpe.

A entrega do Pré-sal está praticamente consolidada. Fica faltando tornar o Lula inelegível e colocar um tucano na presidência. Alguma coisa pode mudar esse cenário?

Em primeiro lugar, essa questão do pré-sal é preciso, talvez, abrir a possibilidade, que é remota, de uma resistência de parte dos trabalhadores da Petrobras, porque outra parte é completamente tucanizada. É uma classe média próspera, criada numa empresa estatal e que hoje talvez prefira ser empregada da Shell e da Chevron. Mas, na outra parte são operários, trabalhadores, especialmente o pessoal embarcado nas plataformas, e não sei se eles vão ter capacidade de resistir.

Falta outro ingrediente, que você não mencionou que é botar o Lula na cadeia. Mas tudo isso tem que combinar também com os russos, com o povo, porque é bem provável que esse governo provoque um afundamento da crise econômica. Esse modelo deles é tipicamente neoliberal, vai destruir a economia brasileira para poder vendê-la barato. Isso talvez provoque algum tipo de reação popular. Tem muita água ainda pra correr debaixo da ponte, portanto, eu não seria tão fatalista quanto você parece ser.

Tem faltado ação por parte dos partidos e movimentos de esquerda para barrar essas ações antipopulares? Existe um sentimento de culpa nisso?

Não sei se eles já têm, se freudianamente já elaboraram essa culpa, se já fizeram uma autoanálise e chegaram à conclusão de que erraram muito. Erraram, sobretudo porque perderam o contato com o povo. Não fizeram aquilo que se chama de contra narrativa, ou seja, expor outros argumentos. E acabou prevalecendo o pensamento e ideologia dos conservadores. Acho que os partidos estão desnorteados, mas acredito que será possível a construção de uma frente ampla que reúna do centro à esquerda. É importante não perder o centro. Escrevi um artigo no Conversa Afiada recentemente sobre isso, de que a esquerda não pode abandonar o centro. Construo ali uma resposta para o Brasil.

Pegando um gancho nesta análise, a esquerda tem apontado o PMDB como um grande inimigo. O PMDB é realmente o nosso maior inimigo?

Não, o nosso maior inimigo é a Casa Grande. O PMDB não teve alternativa. Teve que ir todo para a direita, mas é possível que exista um PMDB que não teria ido para a direita se a Dilma e o PT tivessem sabido trabalhar melhor. Temos que levar em conta que existem progressistas em diversos lugares, e é possível que existam alguns com potencial progressista inclusive no PMDB. O adversário não é o PMDB, o adversário são os interesses empresariais, americanos, antibrasileiros e aqueles que, usando uma terminologia do Mino Carta, estão na Casa Grande.

O PSOL está com um grupo forte e conciso no Rio. No Maranhão, Flavio Dino está fazendo um excelente governo com o PCdoB. Haddad, mesmo com a derrota vem demonstrando extrema maturidade. No centro, Ciro Gomes. Qual dessas forças teria condições de chegar ao poder?

Tem uma frente ampla a ser construída, e todos que você mencionou podem fazer parte dela. Mas um nome é muito difícil apontar. Mais fácil eu acertar na mega sena (risos). Seria como um ônibus para enfrentar esse golpe sem prescindir de todas as forças progressistas, que não apitam a Casa Grande. Digo isso porque me lembro num certo momento do governo militar, sob a articulação do Renato Archer, que era um conservador, um homem de centro para a direita, do Maranhão, que foi progredindo para a esquerda e foi construindo uma nova posição política. Ele permitiu aproximar Lacerda, Juscelino e o Jango para enfrentar o regime militar. Era uma articulação tão interessante, com uma viabilidade tão plausível, que a Operação Condor matou os três. Só não matou o [Leonel] Brizola e o [Miguel] Arraes porque eles souberam se proteger. É claro que não se pode refazer situações históricas. Não quero fazer aqui esse reducionismo, mas penso num ônibus, expressão utilizada pelo doutor Ulysses [Guimarães] para criar o MDB e sair da ditadura, e nele colocar desde a extrema esquerda até a centro-direita e levar os militares para fora do poder. Aí, lá na frente a gente vê quem ganha, quem é que vai dirigir o ônibus. Talvez eu tenha uma visão romântica ou conservadora do problema, mas como diz a professora Maria da Conceição Tavares, “de derrota em derrota chegaremos à vitória”.

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Paulo Henrique Amorim durante o debate na Praça São Salvador. Foto: À esquerda da praça

 

Abaixo, trechos do conteúdo captados durante a fala do jornalista no debate.

“A crise econômica é inevitável, e daqui a pouco o trabalhador vai começar a sentir no bolso a profundidade da crise instalada.”

A alternativa carbonária é longínqua, e a marcha do golpe é acelerada. Um dos ingredientes da marcha do golpe será a aprovação inevitável das medidas econômicas neoliberais que vão aprofundar a crise econômica. Ao contrário do que diz a literatura vigente, não se sai de uma crise com mais cortes, com a supressão e estancamento do investimento público. Eles pressupõem, acreditam que acabando com o investimento público ele será substituído pelo investimento privado e estrangeiro. E os estrangeiros virão para tomar a Petrobras. A crise econômica é inevitável, e daqui a pouco o trabalhador vai começar a sentir no bolso a profundidade da crise instalada. Ele agora está vivendo da poupança, fazendo um acordozinho meia bomba com o patrão, como acabaram de fazer os bancários, que é uma vitória relativa. Então daqui a pouco vão sentir na pele o tamanho do golpe, e aí é possível que haja uma reação que possa para 2018 construir um amplo espectro político que conduza as eleições sob a regência e batuta do Lula. O próximo presidente da república será o Lula ou quem ele apoiar.

Esse meu raciocínio pode dar com os burros n`água, porque é possível e quase provável que a Casa Grande descubra que o Temer não vai entregar a mercadoria. Que ele não tem força suficiente para fazer o que a Casa Grande quer, que é rasgar a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Aí, a Casa Grande é capaz de dizer para o Gilmar Mendes condenar o Temer na Justiça Eleitoral e, em 2017, com sua condenação o Congresso elege de forma indireta um presidente da República, que pode ser um Fernando Henrique Cardoso. Então, toda essa minha construção do ônibus está submetida à possibilidade de um golpe em 2017 e com isso haja uma mudança total da regra do jogo: não ter eleição em 2018, instalação de um regime parlamentarista, voto distrital, e por aí vai. Então toda essa engenharia pode estar equivocada por esse golpe dentro do golpe.

Fotos(*): pt-ribeirao.org.br ; midia ninja

Paulo Branco é professor de Artes Marciais e cronista.

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