Foto: Nodal – Notícias da América Latina e Caribe

O adeus às armas e o futuro da Colômbia

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Os militantes das FARC enfrentarão muito ódio e terão um caminho muito difícil. Deverão perdoar e ser perdoados. Terão o desafio de construir um projeto político democrático, pluralista, moderno e amplo, que se distancie simbólica, ética e politicamente do país do passado.

Por Jairo Rivera (*) – do portal Nodal – Notícias da América Latina e Caribe, de 28/06/2017 – Tradução: Jadson Oliveira

Carlos pega seu fuzil AK-47 com firmeza e caminha para atravessar o lamaçal que inunda seus dias. No dia anterior o limpou pela última vez e recordou com saudade mas sem rancor seus dias de batalha. Não lhe dói nem um pouco deixá-los para trás, mas lhe preocupa sua vida depois da guerra, e também a de seus companheiros e companheiras. Ao deixá-lo em mãos dos delegados da ONU volta-se para lançar um último olhar e mostrar um sorriso.

Para trás ficam a guerra e suas histórias da selva que formam a memória mais importante que poderia conhecer nosso tempo: a da Colômbia profunda e esquecida que inundou com sangue um país que não conseguiu ser Estado nem Nação.

À mesma hora, no mesmo instante em que Carlos e centenas de outros guerrilheiros deixam as armas para transitar à vida civil, uma rede de whatsapp rearma a guerra que Carlos acaba de abandonar. Diz: “Os pensionistas pagarão os luxos das FARC”. É mentira, o único projeto de lei sobre pensões que tramitou no Congresso não tinha relação alguma com o conflito, e em vez de aumentar, reduziu o pagamento da previdência social para os pensionistas. Mas não importa, muita gente acredita e reproduz a mentira.

Enquanto as FARC-EP (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo) deixam as armas, outros explodem bombas na psicologia nacional com mentiras para legitimar a ameaça e o medo: as parteiras de todas as violências. (O ex-presidente Álvaro) Uribe esfrega as mãos. Fez da mentira o fertilizante de sua colheita política para 2018, a custo de um país que a violência impediu de progredir e se transformar.

Esta é a anatomia do instante que vivemos os colombianos. Enquanto a guerrilha mais poderosa do hemisfério ocidental deixa as armas e dá um passo à frente rumo ao aprofundamento da democracia, uma boa parte do país fecha os olhos e cerra os punhos. Não devia ser assim. Devia ser o momento no qual Carlos encontrasse uma mão estendida depois de abandonar seu fuzil. Pelo contrário, o que encontram os que se jogaram de corpo inteiro pela paz é uma nova guerra, muito mais incerta e mesquinha do que a anterior: a guerra do ódio, que não mata o corpo, e sim o futuro.

As FARC decidiram faz algum tempo abandonar as armas como forma de fazer política. Foi um caminho difícil, porém o percorreram com determinação. No passado a violência foi a única via para centenas de camponeses aos quais declararam guerra e lhes fecharam todos os caminhos alternativos. Mas os guerrilheiros sabem há bastante tempo que, apesar de todas as dificuldades para se chegar à paz, na Colômbia de hoje cada dia de guerra acrescenta força para seus inimigos e prejudica o esforço na sonhada construção da nova Colômbia. É uma decisão ética e política.

Neste momento que parece carregado de incertezas, há entretanto uma certeza: as FARC como guerrilha armada já não existem. O ódio destilado nas redes de whatsapp, falsas notícias e tergiversações pelo Facebook, Twitter e declarações temerárias dos membros do Centro Democrático (Nota do tradutor: partido de ultradireita liderado por Uribe) nos grandes meios de comunicação cada vez mais perdem seu sentido de realidade. Seus argumentos, vendendo mentiras ao país para que não abandone o ódio do coração, se reduzem a ficções inventadas para manter o capital político e o caudal de votos. Com o tempo tentarão desesperadamente criar outros demônios para injetar o medo. Falarão da Venezuela e dirão que aqui acontece a mesma coisa, convidarão o país a odiar mais e aprofundar a intolerância e o desrespeito diante das diferenças sexuais, étnicas, políticas e religiosas. Não obstante, ainda que seu discurso faça muito barulho, não vencerão. O deixar as armas não é um ato de morte, mas de vida. Não é um ato de derrota ou resignação, mas de construção do futuro.

Por mais difícil que se veja o momento, a Colômbia governada com o medo não deixa de ser o país do passado. É normal que grite, se defenda, rasgue suas vestes e se recuse a morrer. Porém, mais cedo do que tarde se extinguirá.

O futuro da Colômbia será de vida e democracia. Os militantes das FARC terão um caminho muito difícil. Deverão perdoar e ser perdoados. Terão o desafio de construir um projeto político democrático, pluralista, moderno e amplo, que se distancie simbólica, ética e politicamente do país do passado (o passado da esquerda, do centro e da direita). Seu partido deverá interpretar um país distinto ao das apostas marxistas-leninistas que tinham outro significado nos anos 1960, para adentrar-se numa disputa franca pela modernidade, pela democracia plena, pela justiça social, sem dogmas nem autoritarismos. Aqui e agora.

A sociedade colombiana, apesar de suas desmemórias e desencontros, está vivendo uma mudança de época que a transformará. Os jovens querem um país moderno. Cansados da guerra e sua persistência, os jovens sonham com uma nação onde a gente possa ser e viver tranquila. Onde ao invés de julgar e desprezar as diferenças se celebrem com júbilo e espírito solidário. Onde a gente viva sem temores nem medos. Onde se possa viver com garantia plena de direitos. Onde se possa fazer empreendimento, ter educação, saúde e moradia de qualidade, incentivar a indústria, respeitar o ambiente e a vida, colher a criatividade.

Este país não chegará com o processo de paz com as FARC-EP. Nem o Acordo nem a circunstância política pela qual passamos o permitem. Mas a entrega dos fuzis e o fim da confrontação armada trarão uma oportunidade para mudar de época. Então, os amantes da guerra ficarão sem munição.

Não sei se os caminhos para esta Colômbia em paz se abrem agora ou em 2018, o mais provável é que demore um pouco mais. Mas tenho a firme convicção de que o futuro da Colômbia não será a guerra; e creio que, apesar das incertezas, este instante, o adeus às armas, abre para a Colômbia a oportunidade de se decidir por uma vitalidade criativa e libertadora que nos redima de tantos horrores padecidos.
O abandono definitivo das armas das FARC significa um aqui e um agora, e como no poema de Gioconda Belli, “el dolor se crece en canto” e os que pretendam seguir propiciando e celebrando acontecimentos horríveis serão devorados pela história.

(*) Jairo Rivera é cientista político, professor, ativista social e político colombiano, integrante do movimento Voces de Paz (Vozes da Paz).

(Do jornal colombiano El Espectador)

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