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O que se constrói na pureza de uma pelada

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A disputa iniciava-se antes do jogo. A ânsia de ganhar na adedanha era sinal de que os antagônicos da disputa iriam batalhar a composição da equipe nome por nome. Toninho, para variar, ganhava o primeiro duelo: já notara por muito tempo que Rafael, o adversário, sempre colocava os cinco dedos da mão esquerda na disputa numérica.

Ao iniciar a escolha da equipe, vinha o assombro: o primeiro nome escolhido por Toninho era Marcha Lenta, o único descalço e com pouca habilidade do grupo. Prevendo o espanto, justificava-se: “Eu quero o Marcha Lenta, não faz firula e joga sério.”.

Foram anos de pelada, com a mesma escolha e a mesma tática: marcha lenta perseguia o adversário incessantemente, tomava a bola e procurava o parceiro Toninho para lhe passar a pelota. Habilidoso, Toninho dava seu jeito de para-la junto ao corpo e driblava quantos fosse preciso para colocar, com maestria a bola no fundo das redes. A comemoração de cada gol era de acordo com os acontecimentos do mundo artístico: faziam um passinho de funk, simulavam o gesto de um engraxate ou qualquer outra representação. Sempre em dupla. Era assim que os parceiros venciam as peladas, naquele campo esburacado, em um terreno baldio próximo ao Metrô do Flamengo.

Mesmo com a aproximação promovida pelo futebol, a realidade entre eles era cruel e distante. Enquanto Toninho, morador do 43, da Marquês de Abrantes tinha tudo, Marcha Lenta, quase morador da Baixada, não tinha nada. O quase morador de rua devia-se à instabilidade do lar. Órfão de pai e mãe, o jovem vivia com uma tia que, além de diabetes, sofria de esquizofrenia. As doenças da tia faziam com que ela passasse pouco tempo em casa e muito tempo internada. Essa situação conduziu o menino a optar pelas ruas do Flamengo.

A distância de realidade atrapalhava a fluência da parceria. Era complicado chamar Marcha Lenta para determinados programas. Além da falta de dinheiro e roupas, a distância cultural aumentava ainda mais o abismo entre os dois.
Voltando ao futebol, certa vez, a pelada teve de ser interrompida por uma forte tempestade que alagou o campo e praticamente todo o bairro. E foi ai que Toninho se deparou com a tragédia do companheiro: “Agora deu ruim. Tô ferrado para dormir hoje.”- lamentava-se Marcha Lenta ao ver de longe que seu abrigo debaixo da farmácia encontrava-se alagado. Com os olhos embargados de tristeza, Toninho escutava a lamentação do amigo. Olhando para o nada, procurava uma solução. E, depois de tomar coragem, decidiu: “Segura um pouco aqui que eu vou ver se meus pais já dormiram. Vou ver se dá para você dormir lá em casa.”.

Com os pais de Toninho dormindo, os parceiros entraram no apartamento em silêncio e com as luzes apagadas. As luzes apagadas era uma tentativa de esconder de Marcha Lenta os detalhes luxuosos do local. Pela primeira vez, Toninho sentia vergonha de possuir o que muitos semelhantes não passavam nem perto de ter. Sentiu receio de que, impressionando o companheiro, a relação de lealdade e igualdade fosse prejudicada. Toninho sempre evitava aquilo que promovesse a diferença socioeconômica.

A preocupação foi em vão. Marcha Lenta não pronunciou absolutamente nada sobre a casa, mas via-se em seus olhos profunda satisfação pelo carinho e acolhimento. Por mais que a tia doente se esforçasse para dar o mínimo, a dor de uma vida tão dramática tornava a relação entre ela e o sobrinho, distante e extremamente fria.
Depois de um farto lanche, o clima agradável do ar condicionado, a cama com edredom macio e cheiroso, proporcionou no jovem a volúpia de uma noite de sono jamais tida. Diga-se de passagem, Marcha Lenta dormiu sorrindo.

Logo pela manhã, tomaram café às pressas e saíram de casa antes que os pais de Toninho acordassem. Era fato que se os pais se deparassem com situação haveria constrangimento.

Os anos se passaram, os meninos viraram homens. Marcha Lenta aos poucos sumiu da região. Volta e meia vinham notícias sobre o seu paradeiro: “Tá plantando lá na boca da Fazendinha.” – dizia o segurança da padaria.
A vida de Marcha lenta se tornou um enigma. A de Toninho não. Mesmo tendo se tornado técnico em informática com emprego fixo, Toninho tornou-se alcoólatra. Vez por outra precisava ser carregado para casa. Dizem que a morte do pai e o Alzheimer detectado na mãe aprofundaram seu vício. Sua vida ia de mal a pior. Tentou-se terapia, psiquiatra e o A.A. Tinha princípios de melhora, mas em pouco tempo voltava à situação anterior.

Poucos dias atrás, veio uma notícia boa: Toninho tinha reequilibrado a vida, abandonado de vez o vício. Mesmo tendo se realinhando, a solução encontrada foi motivo de muitas críticas preconceituosas por parte de familiares e amigos próximos. Foi em uma Igreja Evangélica, lá de Madureira que o velho peladeiro encontrou a luz. E, por incrível que pareça, a doutrinação era comandada pelo agora Pastor Antônio Pedro, antigo Marcha Lenta. E todo carinho e acolhimento dado anos atrás, quando o então Marcha Lenta não tinha nada, foi recompensado agora. Mesmo com a distância socioeconômica de sempre, o dinheiro nunca determinou nada na relação dos dois. Pelo contrário, foi à falta dele que os aproximou.

Em épocas de luta contra a intolerância e preconceitos, determinadas condutas me chamam atenção. Muitas vezes o oprimido preocupa-se somente com a sua causa. Luta por ela e discrimina as demais. Lembro-me de um sujeito que sofria com a homofobia. Passou a lutar contra ela, mas não deixou de ser racista e elitista. E assim como este caso, podemos perceber muitas outras contradições que acabam enfraquecendo a luta das minorias, por um país igual e melhor. E a religião, presente nesta história, tem sido alvo de preconceitos quase que em todo mundo.

Aqui no Brasil, por conta de alguns líderes mal intencionados, criminaliza-se o todo. E acabam fazendo coro contra uma série de pessoas, grupos e religiões que propagam o bem, em lugares em que o Estado quase não chega. Precisamos perceber cada detalhe da nossa conduta para não cairmos em contradição. Lutamos por um Estado Laico, o que não pode ser confundido com intolerância religiosa. Ser libertário e revolucionário somente pela causa que lhe agride é ser incoerente. A luta é uma só.

(*) Foto: Destilariadabola.wordpress.com

Paulo Branco é professor de Artes Marciais e cronista.

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