Foto: Arquivo evento.

Ocupações de escolas em debate no Rio de Janeiro

Foto: Arquivo evento.

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A ocupação de escolas públicas do ensino médio no Rio de Janeiro foi tema do seminário Ocupar é Resistir realizado na última sexta-feira (04/11), no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, na Universidade Cândido Mendes (Iuperj/Ucam), no centro da cidade. O evento foi organizado pelos alunos da disciplina Métodos Quantitativos e Qualitativos de Pesquisa Social e contou com a participação de estudantes secundaristas, sindicalistas, professores da rede pública, universitários, dentre outros setores da sociedade.

De acordo com a professora Maria Lúcia Werneck, do Departamento de Economia (IE/UFRJ), o tema das ocupações esteve ausente nas mídias até a preocupação com as eleições por causa das zonas eleitorais. Graças às mídias sociais e alternativas a sociedade conseguiu acompanhar os relatos dos estudantes, criticou a professora. Para ela, os políticos em geral não sabem lidar com a situação e compreender os acontecimentos.

“Os estudantes estão nas ruas cada vez mais organizados desde 2013. Em maio tinha 76 escolas ocupadas no Rio e agora voltaram a partir do Paraná de forma ordeira e criativa. Este movimento ganhou força e um norte mais preciso, não estão mais descobrindo computadores e materiais didáticos empilhados, laboratórios fechados ou alimentos vencidos. Estão contra a PEC 241 e a reforma do ensino médio. A Secretária Executiva do MEC, Maria Helena Guimarães, disse que a ideia da medida provisória foi coroar o debate que ocorre no Brasil, mas os educadores e estudantes já se manifestaram diversas vezes contra”, disse.

O que o governo está prometendo, acrescentou a professora, não poderá ser cumprido porque a PEC 55 que chega ao Senado vai cortar os recursos para a educação durante 20 anos. As ocupações, segundo ela, são um fenômeno novo na política brasileira e expressam a demanda por voz e cidadania. “Há uma descrença nos meios tradicionais de decisão, o desejo de construir e viver novas formas de sociabilidade que superam o individualismo contemporâneo. Eles estão desenvolvendo o respeito à convivência, discutem temas de preconceitos, se apropriam de um espaço que por direito lhes pertence. Reivindicam compartilhar o processo de aprendizagem. É cheio de problemas, mas reitera a necessidade de compreendê-los. Muitos são carentes, sobretudo de projeto de vida. Confrontam a tradição autoritária e hierarquizante das elites do país”, concluiu.

A estudante Juliana Viana, da Associação dos Estudantes do Estado do Rio de Janeiro (Aerj), participou da ocupação no seu Colégio Estadual Professor Alfredo Balthazar da Silveira, em Magé, na Baixada Fluminense, e está apoiando a ocupação do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) em Duque de Caxias, onde estuda. Ela lembrou que as ocupações foram reprimidas desde o começo pela PM e pessoas que deveriam estar ao lado dos estudantes.

Auditório da Universidade Cândido Mendes, no centro do Rio. Foto: Arquivo evento.

Auditório da Universidade Cândido Mendes, no centro do Rio. Foto: Arquivo evento.

“Questionamos o dinheiro que foi para as Olimpíadas, enquanto as escolas estão caindo aos pedaços e com falta de professor. O secretário de educação disse que os alunos precisavam entender a crise, e no dia seguinte foi dado R$ 1 bilhão para a Supervia. Não era questão de dinheiro, e sim prioridade. Durante os atos não fomos ouvidos, pelo contrário. No Palácio estava cheio de polícia, e os estudantes e professores foram agredidos. A primeira escola ocupada foi o Mendes, na ilha do Governador, e em seguida foram quase 80”, lembrou.

Nesse embate os estudantes conquistaram as eleições diretas para os diretores das escolas e a abolição da prova do Sistema de Avaliação das Escolas do Rio de Janeiro, dentre outras pautas do movimento. Agora estão ocupando as escolas federais contra a PEC 55: “Nos dividimos em comissões tomando conta do colégio desde a administração até a comida. Vai muito além de decorar datas e fórmulas, é um ensinamento que vai para a vida toda. Não somos preparados para a universidade pública, os próprios estudantes não se sentem capazes de passar no Enem. Com essa reformulação ficará ainda pior, o que está em jogo é o nosso futuro. Somos capazes de ocupar as escolas, e ninguém vai tirar o nosso direito de estudar”, afirmou.

Professores e sindicatos divididos

Assim como os estudantes encontram dificuldades, os professores e sindicalistas que apóiam o movimento também enfrentam desafios. De acordo com Luiz Guilherme, do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro (SEPE-RJ), é preciso desconstruir um modelo que não favorece o diálogo entre os estudantes e a participação deles nas decisões para o ensino. Para ele, os estudantes estão dando pistas sobre o que deve ser feito.

“Estão entrando no processo de consciência, de criar uma escola para a classe trabalhadora ainda que nos marcos formais. Nossa tarefa como professores é tentar aprender e se renovar com eles. As ocupações geraram muitos conflitos internos e externos, enfrentaram milícias e a máfia das merendas, além do conflito com a sociedade e a mídia que criminaliza e os invisibiliza. Houve tensão com o sindicato e as entidades estudantis tradicionais, que não conseguiram espaço nas ocupações. Estão buscando uma escola horizontal”, disse.

Para contextualizar as ocupações na conjuntura atual, Guilherme alertou para um ciclo liberal conservador que tem usado a expressão liberdade para calar os estudantes. A participação de setores empresariais, como a Fundação Lemann e o Instituto Ayrton Senna, nos rumos da educação brasileira é outra preocupação. “Um pacote do governo que vai recair sobre o funcionalismo público do Rio quase pedindo para os professores saírem para eles entrarem com as OSs (Organizações Sociais). O impeachment está virando uma ditadura, leis contra greve, tortura para desocupar escola, invasão a escola do MST, etc. Está em processo um estado de exceção com respaldo do STF. Os movimentos de ocupação estão impedindo o consenso, a esquerda foi varrida nas eleições e um salto organizativo é a atual tarefa”, disse.

À direita professora Maria Lúcia Werneck, do Departamento de Economia (IE/UFRJ). Foto: Arquivo Evento.

À direita professora Maria Lúcia Werneck, do Departamento de Economia (IE/UFRJ). Foto: Arquivo Evento.

Dando aula em trinta turmas com mais de setecentos alunos, a professora de sociologia Rebeca Souza, da Secretaria de Estado e Educação (SEEDUC), acompanhou algumas ocupações. No Colégio Antônio Houaiss, no Méier, zona norte da cidade, onde dá aula, pôde entender melhor a organização dos jovens. Logo de cara se deparou com os seguintes cartazes: “Nós somos a revolução, Acabou o caô e Rebelar-se é justo”.

“Temos o desafio de aprender com a linguagem e prática dos estudantes. A greve dos professores foi planejada para 02 de março com o desafio de conversar com os alunos e professores, e foram realizados seminários à revelia dos coordenadores. Temos um sindicato fragmentado porque é proporcional, uns queriam lutar e outros conciliar. Nessa disputa interna os estudantes ocuparam o Mendes, na Ilha. Os professores estavam preocupados vendo reuniões de estudantes com muitos gritos e falas sobrepostas, mas eles foram avançando e melhorando a organização e senso de coletividade”, defendeu.

Nesse processo as divergências internas foram diminuindo e houve uma inversão de paradigma entre o educando e o educador, complementou a professora. Os estudantes mostraram na prática concepções de auto-gestão, o movimento vem desde 2013 e o governo dito de esquerda não teve condições de segurar as massas, acrescentou a professora que foi presa durante a Copa do Mundo, no Rio de Janeiro. “Aquela conjuntura já apontava a criminalização dos movimentos sociais. Apesar das diferenças de projetos entre os governos, o estado é muito mais amplo com fortes impactos do empresariado. Se aprofunda o conservadorismo, projeto político econômico que garante a acumulação do capital. As ocupações não estão sendo veiculadas, porque subvertem e demonstram que nem tudo está nas mãos desse bloco histórico. Os jovens nos ensinam a abandonar certos vícios do sindicalismo e dos partidos, há um abalo na lógica representativa: é uma nova pedagogia de luta”, finalizou.

Muitos estudantes não estão aderindo às ocupações, pois há uma cultura e lógica do individualismo
focado no calendário e no sucesso profissional com o enriquecimento. Este é o caso da escola da professora Erika Leonardo, do Departamento de Filosofia do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), no Maracanã, zona norte. Com uma tradição de apropriação dos espaços públicos pelo privado, ela critica vários pesquisadores que preferem utilizar recursos privados em laboratórios que acabam se tornando feudos na rede pública.

“Os alunos nunca se acharam donos do seu espaço trabalhando com materiais caros para criar patentes e lucros. Sempre foram de classe média, mas agora menos com as cotas. Esse pacote quer formar um trabalhador gerador de sua própria renda, o empreendedor. Importa o indivíduo com forte peso na avaliação dos alunos e professores. A Escola Sem Partido prega o fim do diálogo. Os alunos só pensam no discurso do sucesso material, de que não vale à pena ocupar pois não vão ganhar nada: só perder o semestre e o Enem”, criticou.

Esses alunos que criticam o movimento e só se preocupam com as metas avaliativas e o calendário não percebem que vão sofrer com as ameaças impostas à universidade pública, acrescentou. “Existe um desocupa individualista. Cresce também um moralismo, rotulando as ocupações como espaços de homosexualismo, drogas e sexo. Mas a ocupação dá um tchau ao privatismo dentro do público: inverte, desmonta a ideia de educação focada em entrar no mercado de trabalho para ficar rico. Até as coisas burocráticas do colégio eles aprenderam. É a revitalização do público”, encerrou.

Eduardo de Sá é jornalista.

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