Virginia Fontes, historiadora da UFF. Foto:  Comunicação PACS.

PACS: 30 Anos de luta pelo fim da opressão no Cone Sul

Marcos Arruda, fundador do PACS. Foto: Iara/PACS

Marcos Arruda, fundador do PACS. Foto: Comunicação PACS

Para comemorar os 30 anos de luta do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), ocorreu na tarde de hoje (09/11), no Sindicato dos Petroleiros do Estado do Rio de Janeiro (Sinpetro-RJ), a primeira mesa de debates para resgatar a trajetória da organização e analisar a atual conjuntura política. Foi feito um balanço crítico das políticas de desenvolvimento do pós-guerra aos dias atuais. O PACS presta assessoria a movimentos e populações afetadas por grandes projetos, e trabalha pela emancipação individual e coletiva mediante práticas solidárias e autogestionárias rumo a um desenvolvimento alternativo centrado na vida.

Dando a saudação aos participantes, Sandra Quintela, coordenadora geral do projeto, afirmou que o PACS chega aos 30 anos com uma equipe fortalecida, jovem e competente num contexto desafiador: golpe, estado de exceção, recrudescimento das forças repressoras, criminalização dos movimentos sociais, dentre outros elementos, tendo a invasão da Escola Florestan Fernandes do MST como um sinal nesse sentido. Por outro lado, segundo ela, tem uma juventude ocupando tudo resignificando e oxigenando o cenário.

“Estamos sofrendo esse retrocesso brutal hoje. Pensando nos novos sujeitos sociais e instrumentos de transformação, temos certeza do protagonismo das mulheres na luta e política de resistência, a juventude que sempre esteve presente na história brasileira, e os indígenas e populações tradicionais na luta territorial, assim como as populações atingidas pelos grandes projetos. É muito importante pensar nesses atores, na recriação das lutas. Essa é a esperança de renovação”, disse.

Fundador da organização e atual presidente, o economista e educador Marcos Arruda, ressaltou a importância de defender o sentimento de amor à vida para combater a repressão e as catástrofes. Arruda participou na semana passada do Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social e ouviu relatos apresentando uma real depressão e sofrimento permanente de perdas de direitos e territórios de diversos povos em todo o Brasil. A mudança climática, , é outro elemento necessário para luta social junto ao cuidado da mãe terra.

“Temos uma visão muito imediatista, podemos desaparecer pela nossa idiotice de gerir o mundo. E hoje vivemos um golpe institucional corporativo e judiciário, que está retirando a liberdade conquistada há 30 anos. Daí o nosso dever de trazer um sopro de esperança frente a esse poder usurpador”, afirmou.

Arruda ressaltou que há 30 anos o PACS vem desenvolvendo uma educação popular através da unidade na diversidade, e que sempre pautou a questão da dívida pública. “Não só pelo viés financeiro, os credores são os povos, daí a necessidade de uma auditoria de uma dívida ilegal e injusta. Realizamos várias oficinas de economia solidária nos Fóruns, que são proposta de saídas por fora do estado dando poder político, econômico, social, cultural, ambiental e espiritual de baixo para cima. Já temos experiências práticas, o novo impulso já está sendo construído dentro do velho com novas relações. Uma cidadania ativa planetária, que precisa conquistar espaços no campo de governança global”, afirmou.

Capitalismo e Mercado Financeiro

Virginia Fontes, historiadora da UFF. Foto:  Comunicação PACS.

Virginia Fontes, historiadora da UFF. Foto: Comunicação PACS.

O capitalismo é uma maneira de extrair valores de trabalhadores formalmente livres, e estes não percebem o tempo que trabalham para a sua vida e a para o capital, disse Virginia Fontes, historiadora da UFF, especialista em marxismo. Para ela, vivemos hoje o ápice do capitalismo em escala mundial. Ao fazer uma retrospectiva histórica, lembrou que da metade do último século para os dias de hoje houve um processo de expropriação massivo dos trabalhadores do campo em que mais da metade dessa população migrou para o emio urbano. O aumento brutal de trabalhadores nas cidades era o capitalismo exigindo mão de obra e os bens comuns, explicou.

“Nesse contexto forma-se as burguesias fora do centro mundial, como no Brasil. A associação com grandes proprietários e grandes empresas externas querendo enriquecer como os ricos de outros países, daí que vem o golpe para garantir seus lucros e a exploração dos trabalhadores. Retiram direitos sociais e privatizam os bens comuns,”, destacou.

O papel da mídia nesse contexto, segundo ela, é fundamental na educação e domesticação da população pelo capital. “Quanto mais o capital concentra mais ele precisa se espalhar: a única coisa democrática no capitalismo é a dívida pública. O Estado está comprometido para que aquela força de trabalho seja garantida nos próximos anos. Para que o capitalismo se reproduza precisa extrair valor, por isso temos como enfrentá-lo. Impõem um padrão de subordinação do trabalho ao capital como se ele não existisse. Não são efeitos novos, só estão em escalas muito maiores com o deslocamento das forças produtivas. Vamos ter de reaprender a fazer o capital não lucrar. Vai tudo piorar, há uma autorização para truculência a nível mundial”, alertou.

Para entender melhor o funcionamento do capitalismo contemporâneo, a economista Beverly Keene, que milita pelos direitos humanos e contra a dívida na América Latina e Caribe, lembrou como surgiu o mercado financeiro. Ao retornar à década de 1960, época em que havia movimentos de contestação ao status quo e às regras estabelecidas pelos vencedores da guerra, ela lembrou que em paralelo ao crescimento da noção dos direitos houve uma mudança na arquitetura econômica mundial. Se por um lado foi criada a Declaração Universal dos Direitos Humanos e havia um processo de descolonização de nações, por outro surgia uma visão de desenvolvimento que foi endividando os povos e os subordinando ao mercado.

“Com a preocupação em como pagar esse desenvolvimento foram garantidas dívidas para o futuro, numa época em que não havia computadores e cartões de créditos ainda e os valores da moeda eram mais ou menos fixos e acordados. Então surge uma nova arquitetura financeira mundial com um mercado de compra e venda do capital. Mercados fictícios para extrair valor, pura especulação financeira, que vem crescendo enormemente desde então. O resultado é que a cada dia a riqueza é mais concentrada”, criticou.

Recentemente foi publicado um estudo atestando que 1% da população controla 50% da riqueza mundial, o que corresponde a aproximadamente 660 indivíduos e 147 corporações controlando a economia internacional. Esses dados foram apresentados pela militante, que acrescentou a informação de que perto de 45% do lucro do capitalismo vai para o mercado financeiro através de derivados, preços de futuros, operações de crédito, dentre outros instrumentos do capital.

“É a expansão da acumulação financeira vinculada ao endividamento dos países. Mas sempre tiveram várias formas de resistência na América Latina, de não pagar uma dívida ilegítima que não serve às suas populações. Não pagamos porque não devemos, e serve somente ao capital. Necessitamos de uma auditoria para pagar as dívidas sociais, ambientais e tantas outras criadas por essa dívida financeira. Precisamos confrontar essa arquitetura capitalista que explora os povos. Temos de criar as condições políticas para as alternativas possíveis já em curso”, finalizou.

Eduardo de Sá é jornalista.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>