Foto: Página/12.

Publicar a verdade sem medo – por Julian Assange

Foto: Página/12.

Foto: Página/12.

A libertação dos povos depende da libertação da mente dos povos. Para isso, necessitamos que esforços revolucionários pacíficos, como o do WikiLeaks, floresçam ao redor do mundo. Por esta razão precisamos parar a perseguição contra o WikiLeaks e sua gente.

Por Julian Assange (mensagem dirigida a Amigos da Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais pela Humanidade, reunidos em Caracas) – no jornal argentino Página/12, de 07/03/2017 – Tradução: Jadson Oliveira

No livro de Provérbios se diz que /uma casa se constrói com sabedoria, e se estabelece por meio do entendimento. Seus quartos se enchem de belos tesouros através do conhecimento/. Porém há algo mais em tudo isto.

O verso seguinte é “Os sábios são mais poderosos do que os fortes”. O conhecimento é poder.

Tenho a grande honra de me dirigir aos senhores neste aniversário da morte (05/março) de um homem que lutou ampla e aguerridamente contra o imperialismo, o neocolonialismo e outras formas de opressão aos povos, especialmente na América Latina.

(Hugo) Chávez teve o papel mais importante no cenário global com seus incansáveis esforços para continuar avançando na integração e cooperação regional e construir um mundo multipolar.

Denunciou as injustiças tal e como ele as via e em 2001 foi o único líder que denunciou o assassinato de civis inocentes no Afeganistão, cometido pelos Estados Unidos. “Os senhores não podem combater o terrorismo com terrorismo”, indicou Chávez. Pouco depois de seis meses os Estados Unidos apoiaram um golpe de Estado contra ele e que foi revertido quando centenas de milhares de venezuelanos tomaram as ruas, muitos deles com a Constituição em suas mãos. Como todos nós, ele não estava livre de pecado, mas suas virtudes sacudiram a Terra.

Como diretor do WikiLeaks pusemos à luz os segredos dos poderosos e ademais construímos uma Biblioteca diferente e poderosa, uma biblioteca que contém a informação sobre como realmente funciona nosso mundo e suas instituições, que contém informação que por séculos esteve somente nas mãos das elites e que agora – não sem sofrer riscos e perseguições – democratizamos e colocamos à disposição do povo, sem distinção de orientação política ou crença.

É para todos e todas, para que a sociedade de todo o mundo abra os olhos, e com dados irrefutáveis na mão, confronte os poderosos e tire suas próprias conclusões, sem filtros midiáticos, sobre os eventos e decisões políticas que afetam suas vidas.

O objetivo do WikiLeaks, de buscar a verdade em nome da humanidade, é hoje mais importante do que nunca, um objetivo que continuamos procurando apesar do alto preço que pagamos por isso.

O custo, no meu caso, foi alto. Sou perseguido judicialmente e estou detido por quase sete anos, sem que pese acusação alguma contra mim.

A perseguição se estendeu à minha família, a meus filhos, os quais não pude ver durante todo este tempo.

Tanto as Nações Unidas, como numerosas organizações de Direitos Humanos e personalidades a nível mundial fizeram um chamado à Suécia e ao Reino Unido para que respeitem suas obrigações internacionais, para que respeitem e reconheçam a soberania do Estado do Equador e portanto reconheçam meu asilo e deixem de bloquear o exercício deste direito humano. É inconcebível que a atitude imperialista do Reino Unido e da Suécia, em pleno século 21, lhes permita, com total impunidade, ignorar um ato soberano de um país independente, o Equador.

Recordo aos presentes que o Equador pagou e continua pagando um alto preço ao me outorgar o asilo para me proteger da perseguição política por ter exposto os segredos do império. Sua embaixada em Londres sofreu ameaças de ataque pela polícia britânica e, até hoje, está submetida a níveis de vigilância que não têm comparação alguma.

Negar o salvo-conduto para que eu possa ir para América Latina é um ato de imperialismo puro, de países que ocupam altos cargos nas Nações Unidas, e, no entanto, se recusam a reconhecer e habilitar o exercício de um direito universal, e o fazem com total impunidade, passando por cima, ademais, da soberania de um país do Sul e de toda a região latino-americana que respaldou unanimemente meu asilo, constituindo um grave insulto à dignidade de nossos povos e mesmo ao sistema das Nações Unidas. Fazer isso no decorrer de anos mostra a degeneração e o grave retrocesso do sistema internacional de proteção aos direitos humanos para todos.

Nem falar de meu país, a Austrália, mais um serviçal dos interesses imperialistas, que em sete anos não me defendeu nem uma única vez e que ademais procura me criminalizar para que eu não possa voltar para casa. Apesar de uma Resolução em última instância da mais alta autoridade em temas de Detenção Arbitrária que, depois de analisar detidamente meu caso, estabeleceu que minha detenção foi arbitrária e ilegal e o dever de me deixar em liberdade de imediato e me indenizar, tanto a Suécia como o Reino Unido a ignoram por completo.

Mas apesar de tudo, o império não conseguiu me silenciar. Sou livre simplesmente porque sou livre para me expressar. E desfruto desta liberdade graças à coragem do Equador e outros Estados, entre eles a Venezuela, que se uniram para me apoiar. Minha luta pode se converter numa história exitosa para a liberdade de expressão e os direitos humanos.

Portanto, a concessão dum salvo-conduto seria um ato de justiça e dignidade para a região. Permaneceremos fiéis à promessa de publicar a verdade sem medo ou negociações debaixo do pano. Continuaremos nos esforçando em nosso compromisso com a verdade e a justiça social.

A libertação dos povos depende da libertação da mente dos povos. Para isso, necessitamos que esforços revolucionários pacíficos, como o do WikiLeaks, floresçam ao redor do mundo. Por esta razão precisamos parar a perseguição contra o WikiLeaks e sua gente.

Façamos isto juntos hoje. Amanhã pode ser tarde.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>