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Quatro anos sem a voz de trovão: Cícero Guedes, presente!

cicero capa“A única reforma radical é aquela que dá terra ao camponês” – Ernesto Che Guevara.

Nesta semana completam-se quatro anos da morte do líder do Movimento dos trabalhadores sem teto(MST), Cícero Guedes dos Santos. O militante foi sofreu uma emboscada, em Campos dos Goitacazes, Rio de Janeira, em 26 de janeiro de 2013, quando saía da Usina de Cambahyba, no assentamento que liderava na região. Localizado em um antigo engenho de açúcar, o assentamento inseria-se em um conglomerado de sete fazendo com mais de três mil hectares. Cícero liderava a ocupação mesmo após conseguir um lote em outro assentamento, o Zumbi dos Palmares, o maior do estado do Rio de Janeiro. Conseguiu o beneficio junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) em 2002. Morto aos 43 anos, deixou cinco filhos.

O assassinato de Cícero Guedes é um símbolo trágico dos conflitos fundiários da região de Campos. A própria Usina de Cambahyba é mais um dos muitos latifúndios do Norte Fluminense, região que, desde a colonização, reúne uma aristocracia rural violenta. É de conhecimento geral que a ocupação da Usina foi vista como uma afronta ao poder das elites interessadas na área, mesmo após a propriedade ser indicada como improdutiva desde 1998. A ocupação visava pressionar o governo a expropriá-la e inclui-la nos programas de reforma agrária. Os assentados na Cambahyba sofriam reiteradas ameaças dos seguranças da Usina. Com a morte de Cícero, os seus verdadeiramente assassinos (os latifundiários, empresariado e governanças locais) querem mostrar que a vida é o preço pago a quem ousa contrapor-se aos que detém o poder. Indicam o preço que pagam aqueles que lutam por alguma forma de justiça social no interior do Estado do Rio de Janeiro. Lembramos que o latifúndio brasileiro do Norte Fluminense se apóia, sobre o trabalho escravo, o que é demonstrado nas estatísticas de serviço da região, de até das pontuais prisões dos latifundiários transvertidos de empresários na atualidade.

feira ciceroEsse dado é fundamental: o próprio Cícero Guedes veio para região num pau -de -arara direto de Alagoas. Desembarcou em Campos para trabalha/viver em situação análoga à escravidão, numa dessas relações de trabalho exploratórias tão comuns no interior do Brasil. Mesmo com o histórico de vida difícil nunca esmoreceu. Sua força se via nas falas, nas intervenções políticas, sempre pautando a importância da organização dos trabalhadores rurais, dos pequenos agricultores como forma de resistência e luta contra a estrutura colonial violenta do Rio de Janeiro. Contudo, deve-se destacar: foi a partir do MST que Cícero conseguiu se libertar da condição brutal de trabalho. Juntou-se em 1997 aos trabalhadores sem terra promovendo pelo movimento sua emancipação social.

Pessoalmente, foi marcante quando vi e o ouvi pela primeira vez dizendo que as feiras promovidas pelo MST do Rio de Janeiro no Largo da Carioca (Centro do Rio de Janeiro) era um ato político (a fala se encontra no vídeo abaixo). Sua força impressionava. Alto e com uma voz grave que colocava respeito, sempre que podia pegava o microfone para ecoar cantos de organização e de luta nas reuniões e festas. Emociono-me ao lembrar de tais momentos. Entretanto, Cícero não foi apenas um líder político, mas, sobretudo uma pessoa generosa. Não negava apoio a quem precisava como, por exemplo, em um dos movimentos realizados na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) para conclusão do RU (Restaurante Universitário). Ele participou da preparação da comida, serviu e ainda cantou no evento.

cicero uenfPor tudo isso, o professor Marcos Pedlovski escreve que Cícero não “tolerava fraqueza de caráter e descompromisso com as causas coletivas”.Um último detalhe: Além de líder político e pessoa notável, ele tinha importânciapor suas habilidades agrícolas. No seu lote cultivava banana e legumes, a partir de técnicas agrícolas sustentáveis, sendo referência em conhecimento agroecológico tanto pelos militantes da organização como por estudantes e professores da Universidade do Norte Fluminense (UENF). Tudo isso, fez/faz de Cícero uma figura notável, levando as elites fluminenses atramarem sua emboscada.

Contudo, não gostaria de terminar o texto sobre importante figura como do líder negro do MST, Cícero Guedes, evocando seus assassinos, mas sim, suas idéias e utopias coletivas. Elesempre colocou à disposição do horizonte seus irmãos e irmãs de caminhada, por isso, não se acomodou no seu lote conseguido em 2002, em Zumbi dos Palmares. Se tivesse ficado, provavelmente estaria vivo. Foi morto porque atualizar suas idéias de pratica de luta popular, organizando outro acampamento. Cícero deixa o incentivo de que a luta deve seguir até que haja terra para cada brasileiro/brasileira. Lutou bravamente com sua vida contra a estrutura fundiária brasileira, grossa algema que impede o aprofundamento da democracia brasileira. Questionar na prática de vida é um dos pontos fundamentais para transformação socialdo país encarcerado pelas elites anti-vida. Por isso, a luta de Cícero Guedes se faz presente. Mais do que isso. Ela urge! E, a promessa de que suas palavras, ações e gestos são e serão mais e mais cultivados estão entre nós. Sua morte não ocorreu em vão. Obrigado, Cícero, pelas poucas palavras, e pelo canto que rompia o silêncio da conformidade. Pode ter certeza, sua voz de trovão ecoa entre nós.
Cícero Guedes, presente!

assentamento ciceroFontes de internet:
http://exame.abril.com.br/brasil/cicero-guedes-lider-do-mst-e-assassinado-no-norte-fluminense/; https://blogdopedlowski.com/2014/01/26/um-ano-sem-cicero-guedes-e-regina-dos-santos/; https://blogdopedlowski.com/2017/01/25/quatro-anos-sem-cicero-guedes/; http://www.global.org.br/blog/nota-do-mst-sobre-o-assassinato-do-cicero-guedes/;

Vídeos de Cícero Guedes:
https://www.youtube.com/watch?v=r-hGf_kyilQ

Na Feira do MST no Largo da Carioca:
https://www.youtube.com/watch?v=BIYVyy7RM8Y&t=1s

Entrevista sobre atuação e organização popular camponesa:
https://www.youtube.com/watch?v=D2Y3_2U79M0&t=209s

Lançamento de livro sobre trabalho escravo contemporâneo:
https://www.youtube.com/watch?v=R0U4QoHjzB0

Cantando “Chalana”:
https://www.youtube.com/watch?v=2adgCUggxA4

Fabio Py Murta de Almeida é doutorando em Teologia PUC-RJ e bolsista pelo PSDE - Capes no École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS-Paris)

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