Foto: Caderno de Cinema/Divulgação

“A democracia se tornou uma batalha midiática”

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A propósito do recente golpe institucional no Brasil e da participação dos meios de comunicação nele, Washington Uranga retoma o debate sobre o papel dos meios e dos jornalistas na democracia, em especial, na Argentina.

Por Washington Uranga (*) – do jornal argentino Página/12, edição de 14/09/2016 – Tradução: Jadson Oliveira (o título acima é do tradutor; o original é ‘Os meios de comunicação e a democracia’)

O recente “golpe institucional” no Brasil não poderia ser compreendido sem o protagonismo que nesse cenário tiveram as grandes corporações midiáticas. De tanto ser repetida, tal evidência tem se convertido num lugar quase comum e, por este motivo, se corre o risco de ser rejeitada a importância que isso tem para o exercício da cidadania, para a liberdade e para a própria democracia como sistema que busca fazer da representação cidadã a garantia da igualdade de direitos. O certo, o real, o concreto é que no Brasil os congressistas destituíram, sem motivos comprovados, a presidenta que havia sido eleita por 54 milhões de brasileiros. E para fazê-lo contaram com a cumplicidade dos meios de comunicação mais poderosos que atuaram nesse sentido, construíram narrativas, em alguns casos falsearam informação e, claro, jogaram na defesa de seus próprios interesses.

O que ocorreu no Brasil agora põe em realce uma realidade que atravessa toda a região e que vem se repetindo em vários países, apenas com pequenas diferenças, e que volta a colocar sobre a mesa o debate do papel dos meios de comunicação e dos jornalistas na democracia. E abre novamente a possibilidade de pensar o assunto na Argentina.

O colombiano Omar Rincón, um dos estudiosos latino-americanos da comunicação que mais tem se dedicado ao tema, em vários de seus escritos sustenta que “a democracia se tornou uma batalha midiática” e que “os meios de comunicação são o campo onde se está jogando a democracia na América Latina”, para acrescentar em outro momento que “meios de comunicação e governos lutam por atrair o povo”, porque “os meios abriram mão do seu papel de contrapoder e se assumiram como atores políticos; acreditaram tanto neles mesmos que decidiram que com base no seu poder moral e sua tradição liberal e sua liberdade de expressão tinham direito de julgar, condenar, absolver, dar ordens ou governar”.

São frases de diferentes textos do pensador colombiano que todas juntas servem para descrever um processo que assistimos em todo o continente.

Manuel Chaparro, jornalista espanhol e doutor em Ciências da Informação pela Universidade Complutense de Madrid, completa tal panorama advertindo “que a cidadania tenha que ficar em silêncio numa democracia é não somente prejudicial mas também perigoso” e “que os meios de comunicação definam e interpretem o sentimento, a inquietude e o desejo dos cidadãos em função dos próprios interesses ocultos é desestabilizador”.

E acrescenta o próprio Chaparro que “a comunicação deve promover como objetivo o empoderamento da sociedade civil, sua capacidade de resposta crítica, sua participação a partir do manejo duma informação comprometida com a verdade. A informação nos meios de massas deve responder à necessidade de facilitar pontos chaves para se compreender a realidade. Não é possível responder aos desafios e problemas sem um sistema de informação e comunicação verdadeiramente democrático”.
Então, qual é o papel que os meios de comunicação e os jornalistas podem e devem jogar no sistema democrático?

As respostas estão nas afirmações de Chaparro assinaladas linhas acima.

- Empoderamento, participação e resposta crítica dos atores da sociedade civil a partir do manejo de informação veraz, plural e diversa, em fontes, em argumentos, em representações.

- Colaboração em oferecer pontos chaves de leitura para a interpretação da realidade, para compreender as situações da vida cotidiana. Pontos chaves de leitura que devem ser entendidos como ferramentas para interpretar e não como visões ou receitas prontas e predeterminadas.

Conclusão: um exercício pleno do direito à comunicação, no qual os jornalistas, os comunicadores em geral, aprofundam sua tarefa de facilitar o diálogo público no espaço público, como profissionais mas também como atores comprometidos duma sociedade democrática que necessita do aporte de cada um e cada uma para continuar se construindo e se consolidando.

E como vem sustentando em seus diversos pronunciamentos na Argentina a Coalizão por uma Comunicação Democrática (CCD), garantir tal visão não pode ser apenas uma decisão individual dos donos dos meios ou dos jornalistas, mas que por se tratar duma questão atinente aos direitos do conjunto da cidadania, corresponde ao Estado ter uma participação ativa e positiva para assegurar tais direitos. O debate sobre a nova lei de comunicação que o governo diz impulsionar gera uma nova oportunidade para que assim seja, sempre e quando os representantes abram seus ouvidos para escutar os diferentes atores envolvidos.

(*) Washington Uranga é jornalista, professor e estudioso da comunicação; nasceu no Uruguai e vive na Argentina.

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