A esquerda latino-americana está devendo uma autocrítica

O processo revolucionário se dá por ondas na América Latina, veio a onda progressista, agora vem a onda da “restauração conservadora”: chegou então a hora de fazermos autocrítica para evitar os erros cometidos, ensina García Linera.

De Salvador-Bahia – No finalzinho do século passado, com a eleição de Hugo Chávez na Venezuela (em 1998), começou uma onda progressista na América Latina. Mas no início da segunda década deste século a maré virou – vamos dar um ano simbólico para isso: em 2013 o mesmo Chávez morreu e a direita começou a mostrar sua cara, ostensivamente, no Brasil.

Vinha aí a “restauração conservadora”, na expressão cunhada pelo presidente do Equador, Rafael Correa, ele próprio uma das maiores expressões do surgimento dos governos considerados progressistas.

Depois dos ventos soprando para a esquerda e trazendo melhores dias e esperanças para os povos, voltam os ventos que apontam para a direita, alargando ainda mais os ganhos das oligarquias, dos rentistas e do império.

Quem falou que há um processo revolucionário que se dá por ondas na nossa Pátria Grande foi Álvaro García Linera, vice-presidente de Evo Morales na Bolívia desde 2005, conforme matéria do jornal argentino Página/12, edição de 29/05/2016, assinada por Florencia Garibaldi e intitulada ‘Temos que mudar a alma da sociedade’. Ele cita aí a situação atual do Brasil e da Argentina como exemplo marcante do retrocesso.

(García Linera é o tipo do intelectual engajado, professor e estudioso da política, especialmente da participação dos movimentos indígenas. Fez parte do Exército Guerrilheiro Tupac Katari (EGTK) e esteve preso durante cinco anos).
Ele ensina que agora que chegou a onda da regressão, temos que fazer autocrítica para evitar os erros cometidos na onda anterior. Cita então seis itens que numerei e traduzi do espanhol. Vou transcrevê-los a seguir, aclarando que os parágrafos entre aspas são da matéria do Página/12, enquanto os outros são comentários e acréscimos de minha autoria:

1 – “Temos que dar muita importância à economia no sentido de que se não há uma base econômica que garanta bem-estar aos mais pobres, não teremos estabilidade e garantia de continuidade”.

Este não é um problema da Bolívia, cujos índices econômicos atualmente são os mais exitosos. Mas é uma pedra no sapato de governos como o do Brasil e da Venezuela, para usar dois exemplos.

Nenhum governo se sustenta quando a economia vai mal

A presidenta Dilma Rousseff, acuada pela crise política, teve agravada sua situação por não conseguir amenizar os efeitos da crise econômica mundial, tendo que amargar a crescente impopularidade na rabeira da derrocada dos indicadores da economia. Está afastada, por enquanto provisoriamente, por um golpe midiático-parlamentar-judicial (chamado “brando”, de acordo com os novos métodos fabricados nos laboratórios da ‘inteligência’ imperial).
Já a Venezuela, inteiramente dependente da exportação do petróleo, foi arrastada para o caos econômico, a partir da diminuição brutal do preço do seu recurso natural – de 100 dólares o barril para a faixa dos 30.

Sem entrar em considerações específicas, geralmente nenhum governo consegue se sustentar se a economia vai mal, conforme me advertia outro dia meu amigo José Crisóstomo, professor de Filosofia da Universidade Federal da Bahia que andou estudando Economia nos Estados Unidos.

2 – “Em segundo lugar, ainda que um governo tenha que governar para todos, incluídos seus adversários, nunca temos de fazê-lo às custas de golpear a base social que nos levou aonde estamos e que nos sustenta. Não podemos mudar de aliados na metade do caminho”.

3 - “O terceiro fator tem duas caras, uma é que cada ação social que seja feita no tocante à justiça e à igualdade tem que ser acompanhada por processos de politização. A outra cara é saber entender as novas sensibilidades e discursos, formas de organização e comunicação das classes médias emergentes”.

Este alerta de García Linera parece cair como uma luva diante da brutal despolitização das parcelas emergentes da sociedade brasileira. As políticas de inclusão dos governos Lula/Dilma jogaram cerca de 40 milhões de brasileiros no mercado de consumo, segundo dados correntes – é muita gente, que passou a ter poder de compra: o equivalente à população da Argentina, por exemplo.

Mas essa gente parece ter engrossado a massa dos “perfeitos consumidores”, ou seja, aquela parcela da população cuja felicidade está configurada pelo ato de comprar, sem qualquer formação ideológica condizente com valores humanistas.

Poderíamos considerar mesmo ter havido, ao contrário, uma politização deletéria, cuja maior façanha foi tornar hegemônica na sociedade a ideia da criminalização da política e dos políticos, no rastro duma campanha partidarizada de suposto combate à corrupção.

Aí, sem sombra de dúvidas, jogaram um papel fundamental os monopólios da mídia hegemônica, um tema que tem se tornado repetitivo nos artigos que venho escrevendo nos últimos anos (foi o assunto, aliás, da minha reestreia neste Fazendo Media no último dia 4: ‘Blogosfera progressista x mídia hegemônica: é preciso dar um passo à frente’).

Desafios das novas classes médias emergentes

O que o vice-presidente boliviano está dizendo, segundo meu entendimento, é que a esquerda (e/ou a centro-esquerda) latino-americana, incluindo aí governos tidos como progressistas, como os do Brasil, não soube como tratar tais classes médias emergentes, destacando os aspectos da organização e comunicação.

Ouso acrescentar, por minha conta e risco, que a esquerda não conseguiu estudar e compreender as mudanças, provindas dos avanços tecnológicos, no mundo do trabalho, em especial a redução do protagonismo político do operariado.

Também as novas (e novíssimas) ferramentas da tecnologia da informação, apropriadas com desenvoltura pela juventude, permanecem como um enigma sedutor, e como um enigma é pouco compreendido e pessimamente manejado pelos partidos e movimentos sociais das esquerdas.

Voltamos ao nosso García Linera:

4 – “A quarta lição é sempre levar adiante uma revolução cultural que acompanhe as transformações econômicas. Temos que modificar a alma íntima da sociedade”.
Pergunto: como fazer uma revolução cultural sem uma poderosa rede de meios de comunicação contra-hegemônicos? Pelo que sei, os governos que investiram na construção duma tal rede na América Latina foram somente os da Venezuela, Equador, Bolívia e Argentina (não falo de Cuba, uma situação completamente à parte).

5 – “Um quinto elemento é o comportamento ético. Um governo tem que acompanhar o dizer com o fazer, o que propõe com o que é”.

Sinto que cada item daria comentários que formariam vários artigos, mas temos que resumir. Digo apenas sobre este quinto: o PT brasileiro entrou alegremente na farra do “caixa 2” das campanhas eleitorais, se igualando aos demais partidos nesta prática corrupta. Claro que não é “o partido mais corrupto da história do Brasil”, como alardeiam sempre a Rede Globo e sua gangue da imprensa “gorda”, mas se sujou também na corrupção, contrariando princípios e práticas originais.

Talvez possamos dizer – o que pode servir para alguns como consolo – que o PT seja o menos corrupto dentre os maiores partidos brasileiros.

6 – “O último elemento – completa García Linera - é como se garante em regimes democráticos a continuidade da liderança, sobre o que não tenho a menor ideia, não encontrei solução”.
PS: Vai o link (ou endereço eletrônico) da matéria do Página/12 (em espanhol): http://www.pagina12.com.ar/diario/elmundo/4-300498-2016-05-29.html

Jadson Oliveira é jornalista baiano. Trabalhou nos jornais Tribuna da Bahia, Jornal da Bahia, Diário de Notícias, O Estado de São Paulo e Movimento. Depois de aposentado virou blogueiro e tem viajo pela América do Sul e Caribe.

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