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Caminhamos para a Insanidade

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Na última quarta-feira, logo pela manhã, fui ao mecânico trocar algumas peças da moto. Antes de descrever os assuntos que me fizeram falar desse encontro, destaca-se a maneira que o mecânico leva a vida: não tem apego a nada material, vive de forma extremamente simples e tem no bom bate-papo um dos maiores prazeres de viver. Além de tudo isso, é um bom profissional e cobra sempre um preço justo.

Entre uma peça e outra que ia sendo trocada, o mecânico, meu amigo há mais de dez anos, ia botando para fora todo o seu desgosto com a humanidade.

Uma das histórias contadas era a de um pai que usou o filho para ganhar um processo na justiça, contra um artista famoso. A alegação era de abuso sexual. Tempos depois, descobria-se a farsa: o sujeito aplicava golpes dessa natureza de tempos em tempos.

Na verdade, esse foi um dos casos contados. Mas, dentre todas as histórias, havia um fato em comum: a busca incessante por dinheiro e poder.

Escutando tudo aquilo, fui tentando arrumar um meio de politizar os atos e tentar mostrar ao amigo como o Capitalismo não deu certo e pouco a pouco vai nos desumanizando.

Mesmo o sujeito tendo relutado inicialmente a aceitar minhas teorias, concordamos que a ganância e a busca doentia por poder e dinheiro nos colocam numa roda gigante infinita e ilimitada. Ninguém se sente satisfeito com o que tem: quanto mais, melhor. Uma vez que se foi cooptado pela doença do capital, a tendência é que a falta de pudor vá se alastrando e nos distanciando dos sentimentos básicos e da visão cordial com o próximo.

Chegando em casa, abro alguns sites de notícias e me deparo com trechos dos últimos áudios entre Renan Calheiros e Sérgio Machado. Em uma das falas, Renan explica por que Dilma não consegue diálogo com a Suprema Corte:

“Não negociam porque todos estão putos com ela. Ela me disse e é verdade mesmo, nessa crise toda –estavam dizendo que ela estava abatida, ela não está abatida, ela tem uma bravura pessoal que é uma coisa inacreditável, ela está gripada, muito gripada– aí ela disse: ‘Renan, eu recebi aqui o Lewandowski, querendo conversar um pouco sobre uma saída para o Brasil, sobre as dificuldades, sobre a necessidade de conter o Supremo como guardião da Constituição. O Lewandowski só veio falar de aumento, isso é uma coisa inacreditável’.”

Inevitavelmente juntei tudo que ouvi do mecânico e li pela internet. A sensação é de que estamos caminhando, a passos largos, para a insanidade total.

Se a nossa Suprema Corte, que deveria ser o melhor exemplo do que é justo e equilibrado, está assim, o que esperar do restante da sociedade?

Uma das coisas que nos mostra que estamos totalmente perdidos, é a ausência de vozes, principalmente no meio da anti-esquerda, que vociferem por uma reforma Política, Judiciária e midiática. Não se escuta nada neste sentido. Pedem a cabeça de um, a prisão de outros, o fim de programas sociais que, segundo eles, destroem a nossa economia, mas nunca o principal, que são as reformas.

Guiados por propagandas e pela obsessão do consumo, muitos de nós já não consegue perceber onde está o verdadeiro mal: o capitalismo está nos destruindo pouco a pouco.

Os ricos e teoricamente bem sucedidos, escondem suas dores e frustrações em viagens pelo mundo ou consumindo exageradamente tudo aquilo que supostamente traga felicidade e a manutenção do status quo.

Os pobres, ferramenta fundamental da engrenagem dos de cima, trabalham mais e mais, também seduzidos pelo consumo e por um devaneio de que um dia chegarão ao topo. Crendo nisso, vão perdendo também o pudor e seguindo a mesma linha insana e desumana dos demais.

Voltando à política, vale lembrar, que tempos atrás, Dilma prudentemente vetou o aumento. Numa tentativa de aumentar o déficit do governo e agradar o Judiciário, Eduardo Cunha apressou a aprovação do projeto que promovia um aumento de 41% para a classe.

Depois dos áudios, ficou comprovado que o aumento salarial não era apenas uma tentativa de prejudicar as contas do governo e sim de agradar e cooptar alguns membros da justiça.

Lamentável é saber que o mais alto escalão daquele poder, está vendido e comprometido exclusivamente com o capital e com uma claque perversa de golpistas e corruptos. Uma tragédia para o nosso país.

Outra tenebrosa constatação é que, mesmo diante dos áudios, grande parte da população age como se não houvesse nada de demais no que foi escutado. Mantem uma postura misógina diante da Presidenta e além de achar que ela é corrupta, continuam acreditando que toda a trama trará algum bem para o país.

Diante da sensação de impotência, a única coisa que se pode fazer é estimular a sociedade a refletir, mudar e lutar pelas pautas urgentes, de forma sensata e organizada. Caso contrário, seremos, cada vez mais, enganados e esmagados por instituições doentes, que vivem a serviço dos poderosos.

Foto(*): latuffcartoons.wordpress.com

Paulo Branco é professor de Artes Marciais e cronista.

Um comentário em “Caminhamos para a Insanidade

  1. Está tudo contaminado! O sistema em geral está contaminado .

    Não sabemos em quem confiar e se marcamos bobeira desconfiaremos da nossa própria sombra . Hoje ,do jeito que este mundo caminha fico desconfiado quando vejo algumas pessoas com boa vontade de ajudar . Não creio em Deus e agora agora ,não creio também nos homens .

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