A carestia de vida chegara sem pedir licença. A grana, que para grande maioria já não era tanta, vinha sendo comprimida, dia após dia, com o crescente custo das coisas básicas. Consequentemente, diminuía-se o lazer. Tudo aquilo era prenúncio de que, em breve, as contas poderiam atrasar. Como diriam alguns, era o Rio surreal.
Gregório, homem de grandes sonhos e costumes simples, como a grande maioria da população, vivia o drama financeiro. Metódico e de certa forma otimista, adiantou-se à crise e reorganizou os gastos: “esse aqui vai para as contas básicas, essa outra parte eu separo para a cerveja de sábado e esse dinheiro aqui vai para o tratamento de canal. Desse mês não passa.” – era ele distribuindo os gastos e impondo que aquela terceira parte não poderia ter outro fim.
Ao contrário de tempos atrás, quando a situação era melhor e se pretendia alongar os dias e os meses, Gregório passou a sentir-se mais confortável com a proximidade do fim de mês.
- Sobrevivi até o dia 15. Restam mais duas semaninhas e quem sabe no mês que vem a situação melhore.
Expectativa em vão. A cada mês que chegava o dinheiro diminuía. Manter o otimismo era o máximo que se podia fazer. Talvez fosse uma forma de maquiar tamanha frustração.
E no interim daquele temeroso período de vacas magras, eis que surge o inesperado: na região mais agitada da Lapa, especificamente no bar das Entidades, às cinco da manhã, conhecera uma mulher de parar o quarteirão. Não que aquele homem, de charme e beleza consideráveis, não tivesse sorte no amor. Mas é que a hora, o lugar e o monumento faziam uma combinação intempestiva.
- Olá! Sempre te vejo e a gente nunca teve a oportunidade de se falar - dizia Aline, em tom eufórico.
- Verdade, faz tempo que a gente se vê mesmo. – confirmava Gregório ainda tomado de desconfiança com a súbita proximidade.
Depois daquela retórica inicial, de forma surpreendente ela toma decisão:
- Vamos marcar, me passa seu telefone que a gente se encontra e conversa melhor. – concluía ela, sabendo perfeitamente o que queria.
- Anota aí: 6662222.
Gregório, otimista até certo ponto, equilibrava-se entre a desconfiança e a possibilidade de um voluptuoso encontro.
E na terça-feira, quase fim de mês, veio o convite por mensagem telefônica:
- E aí Gregório, tudo bem? Vamos tomar um vinho e comer uma pizza mais tarde? – sugeria Aline.
- Olá. Tudo bem. Vamos sim. Aonde?
- No Defrontee.
- Confirmado.
Entusiasmado com a proposta, Gregório foi, subitamente, tomado de uma sensação angustiante. Era fim de mês, o dinheiro do lazer estava praticamente zerado, restando apenas a grana do canal. E o pior, acostumado a frequentar pé sujo, nunca ouvira falar do tal Defrontee.
Em contrapartida, procurou encaminhar o curso dos seus pensamentos de que uma pizza e um vinho não seriam nada excepcionais. Além do mais, aquela morena era exatamente o tipo de mulher que há tempos seu subconsciente construíra como mulher ideal para um relacionamento. Destaca-se aqui, que o nosso herói depositava na beleza a maior parte dos seus desejos para um suposto relacionamento. De forma tímida, buscava acoplar características de uma pessoa de bem no meio daquela beleza virtuosa.
Antes de concluir se rolou ou não aquele encontro, Gregório procurou saber referências do tal Defrontee. Consultou um amigo próximo, daqueles que costumam frequentar a alta sociedade:
- E aí Flávio, qual é desse Defrontee?
- Olha rapaz, para o sujeito que observa o cardápio pela direita, acho que não é o ideal. Mas a pizza é boa sim. – era Flávio confirmando o ponto em questão: o restaurante era caro.
E agora, que diabos o nosso herói faria? Fim de mês, encontro marcado com uma morena de parar o quarteirão e o dinheiro do canal em cheque.
Para não prolongar o dilema, confirmo que o encontro aconteceu. O canal fora desmarcado, para desgosto do dentista, que também já contava com a grana daquele serviço.
Foram. Às dez horas se encontraram bem na frente do estabelecimento. A beleza de Aline era tanta que, em êxtase, Gregório pensou para si: “dane-se o canal, as contas. Oportunidade como esta não é toda hora que surge. Vamos brindar à vida.”.
Toda aquela sensação potencializada pela beleza de Aline transcorreu até o primeiro gole. O primeiro contato do vinho tinto chileno Seleción Limitada com o dente molar inferior, provocou uma pontada de dor que se alastrou pelo corpo todo.
Com a face estupidamente ruborizada não conteve a careta de aflição.
- Está tudo bem Gregório? – perguntava ela com a voz singela.
- Está sim Aline, só andei pensando numa situação aqui. Mas já já passa.
Destaca-se que aquela sensação dolorosa apareceu mais umas duas vezes durante o encontro. A segunda foi quando a massa da pizza pressionou o nervo do dente debilitado e a outra na sobremesa, quando a temperatura do sorvete pistache devastara de vez o pouco que restara do necrosado dente.
Não é preciso dizer que a conta também foi dolorosa. Foi-se o do canal e outra migalha do cartão. Saiu de lá zerado.
Tirando o drama financeiro e a dor física, o encontro fora aprazível, apesar de terem conversado com pouca profundidade e não terem estendido para outro canto o encontro. Ficaram de marcar uma próxima.
Como estratégia, Gregório já induzia os rumos do próximo encontro:
- Adoro natureza Aline, vamos ver se a gente faz um programa diferente na próxima. E depois, a gente assiste a um filme lá em casa. Tenho uma coleção gigante de clássicos.
- Ah que legal. Garoto da natureza! Vamos sim, mando uma mensagem semana que vem.
A mensagem demorou um pouco mais que o esperado. O mês virara e infelizmente a realidade sobrepôs-se ao otimismo: o valor arrecadado, mais uma vez, fora menor que o desejado. A única coisa boa é que, desta vez, o canal, mesmo superando o tempo indicado pelo médico, enfim fora remarcado: dia 6, segunda-feira, às 9 horas.
Gregório sobreviveu até o dia 6. Aline ainda não havia aparecido e, por incrível que pareça, o dente parara de doer.
Veio a consulta. Em cinco minutos de análise, o diagnóstico:
- Esse dente já era, está morto. Ou a gente tira ou coloca um novo.
Tirar era barato, colocar outra era cinco vezes mais caro que o valor do canal. Tirou-se mais um. Era o terceiro dente decapitado na raiz, o que veio a aumentar o buraco abissal, na região posterior esquerda.
Tomado de angústia e baixa autoestima, o nosso herói decidiu não responder mais a Aline. Ficara sem mais um dente e sem a morena de parar o quarteirão.
E a conclusão é que sem o básico, não há psicológico que sustente a autoestima.
Ludicamente vc expôs o cenário em que vaios Gregórios se encontram ou ja passaram neste país. A ideia de termos o básico para entao nos ocuparmos do secundário, mesmo que ele nos dê enorme prazer!! Muito bem exposto