Processo Rápido

- Funerária Vai com Deus, bom dia.

- Ana? É o J.P.R, tudo bem?

- Oi J. Tudo na paz e você, novidades? – perguntava a secretária desconfiando que uma ligação de J era prenuncio de coisa boa.

- Tenho sim mulher, coisa fina, coisa fina. Em plena quinta, pertinho da nossa sexta sem lei, tem velhinho quase lá. – era J confirmando a intuição da secretária.

-Ah é? Mas e ai, e a família? – direcionava o diálogo, com certa pressa, para as pautas fundamentais.

-Ih, gente da alta. Vou colocar na fita o plano Gold. Depois é só o Marcão vir e fechar. – resumia J.

-Eita maravilha, amanhã é dia de champanhe então. – relaxava Ana, como se a batalha fosse fácil.

- Calma mulher afobada, o velho tá resistindo aqui, não se entrega por nada. E você sabe que eu não gosto de… Você sabe. – era J descrevendo o quadro do paciente e o dissabor de ter que cometer a crueldade.

- Ah J, não me venha com essa. Vai se desfazer do apelido carinhoso? – provocava Ana.

-Pô mulher, é duro, é duro… – qualificava J, nem dizendo que sim, nem que não.

- Para de conversa, pensa no nosso conforto amanhã. Festa elitizada, regado de bebida e ainda sobra para você investir em outra coisa. Vamos, alegria, alegria. – era a forma pragmática encontrada por Ana para que J não pensasse na crueldade dos seus atos.

- Beber e curtir é mole Ana, quero ver meter a mão na massa. – dizia com ar de vítima e sofrimento.

- Para de drama, vai bancar o santo agora? Meu amigo, isso ai não tem nada de demais, você está só diminuindo o sofrimento do homem. – era o morde assopra da secretária, que primeiro desafiava o sujeito, desmoralizando-o e na sequência amenizava com uma justificativa vil.

- Mesmo assim não é fácil Ana…

Percebendo a barreira psicológica, a secretária busca novas estratégias.

-Quantos anos? – perguntava ela.

-92.

- Ah, você tá fazendo é favor. Já curtiu muito, pode ter certeza.

-É, mas o homem é ex-atleta, tá resistindo bem. Inclusive tem médico acreditando na melhora. – dizia J, dificultando mais uma vez o caminho para o ato cruel que viria a cometer.

- Ih corta essa. Essa gente que quer fazer velho viver mais, não sabe o trabalho que dá limpar, dar banho. – era a forma rápida que Ana tinha de anular e desqualificar as intenções médicas.

- Isso é verdade, mas família é família, tem dessas coisas. – refletia o enfermeiro.
Silêncio.

- Só um minutinho J.

- Fala rápido que já já me chamam no CTI.

- Aguarda na linha.

Ana temendo perder a venda resolve buscar novos recursos que apoiassem e avalizassem o ato.

No silêncio das vozes, o único barulho era o de J. dando batidinhas com a caneta na mesa. Eram sinais de impaciência e dúvida.

Dois minutos depois.

- Oi

-Fala

- Geraldo liberou aqui. – dizia Ana com voz determinada.

-O que? – perguntava em tom esperançoso, mas já prevendo novos aportes na proposta.

- Mais 10% se conseguir deixar na boa para a família comprar o plano Gold. Só pediu para você honrar o apelido e acelerar o negócio. Assim com eu e você, o homem amanhã também quer desfrutar de coisa boa. – era a cartada final, desfazendo-se das análises humanas e partindo direto para o que interessava.

- Ah é? Mais 10% é? Vocês sabem jogar o jogo né? – rendia-se J, com ar de que fora mais uma vez vítima da estratégia de convencimento alheio e não de sua própria vileza.

-Pensa muito não. Não tem nada de mal adiantar um serviço que em breve Deus faria. E no mais, pensa em tudo que você conquistou ao longo desses anos: terreno em Maricá, moto nova, Playstation para os seus filhos.
Alguns segundos de silêncio e J nada dizia. E a secretária impaciente reinicia:

- Porra J o cara tá com 92 anos. E no mais você é um cara bom, sempre foi trabalhador, cuida da família como ninguém. A vida é isso ai, para alguém rir, alguém tem que chorar. E agora são 20%! – era estratégia psicológica que Ana sempre utilizava para transmitir confiança a J.

- Tem razão, tem razão. Sou um cara bom, sempre que posso faço o bem, nunca atraso ninguém. E a vida tem mesmo dessas coisas, os negócios, grandes negócios. – era J falando para si, convencendo-se de que sua bondade era irrefutável.

- Boa J, gosto de ver você assim, destemido e com ar empresarial. - Depois de vitoriosa na batalha psicológica, a secretária volta-se para burocracia:

- Olha, o Marcão tá indo ai amanhã, logo cedo. Deixa tudo encaminhado para ele pegar a família no ponto certo. Não pode atrasar hein. Resolve logo isso.

-Pode deixar. Mas manda ele chegar devagar, sem pressa de querer vender logo. Esse homem é muito frio, já chega falando de caixão isso, caixão aquilo. A família tá sensível, percebe a ganância. Tem que fazer cara de tristeza, colocar a mão no ombro, desejar sentimentos. Depois vai valorizando o material, dizendo que o homem vai ser enterrado no melhor caixão, descreve a beleza do material, o translado, essas coisas. Tem que pegar na vaidade da família. – era J ensinando uma maliciosa e abjeta estratégia de vendas.

- Pode deixar, falo com ele aqui.

-Ok. Vou correr.

- Isso, acelera ai! Amanhã o homem tá deitado eternamente em berço esplêndido, no caixão mais luxuoso de toda a frota. Quer final melhor que esse J?- dizia a secretária em tom sarcástico, ignorando a falta de pudor da ação.

- Vou lá então.

- Vai na fé homem. Amanhã tem ostentação. A vida é uma só J.P.R.

E foi assim que o enfermeiro J.P.R (Joãozinho Processo Rápido), colocou mais um no caixão da Funerária Vai com Deus.

Após agilizar o processo de morte, enaltecia a dignidade que seria para o finado um desfecho luxuoso. E completava o repertório estratégico, sugerindo a família o mais caro plano funerário da empresa parceira. Como dissera anteriormente, pegava exatamente no ponto chave: a vaidade. Tudo exatamente como mandava o figurino, facilitando o caminho do vendedor Marcão.

Com os papéis assinados e o cheque pronto, o cadáver do ex- General do Exercito e atleta tinha um novo destino: um caixão com as alças de aço inoxidável, urna e acolchoamento diferenciado. Tudo repleto de flores e cercado por castiçais também decorados. Era o plano Gold, mais uma vez, atingindo no ponto fraco das famílias envaidecidas.

E mais uma vez, J.P.R honrava seu apelido. Desta vez, o processo que acelerava a partida de mais um moribundo indefeso lhe rendera 20% de comissão. Parte do dinheiro adquirido possibilitou que a festa na Boate The Lux fosse mais requintada que nunca. Ao som de Raul Seixas, o grupo unido celebrava, cantando:

Eu te detesto e amo
Morte, morte, morte que talvez
Seja o segredo desta vida…

Era o capital, mais uma vez, falando mais alto que tudo.

 

(*)Foto: www.ebc.com.br

 

Paulo Branco é professor de Artes Marciais e cronista.

3 comentários em “Processo Rápido

  1. Pura verdade. O ser humano sustenta a vaidade até no momento difícil da morte. Até nessa hora as ostentações de riqueza aparecem como símbolo de status e vaidade. Vaidade como quem diz que era o morto digno e valoroso que vai para debaixo de sete palmos ser comido por vermes num caixão enriquecido com essas demonstrações do poder do dinheiro. E até desse pobre sentimento humano o capitalismo se aproveita. Que o diga a máfia das sepulturas por todo o pais, a indústria da morte etc. Há mil teorias e explicações para esse vetusto lado humano, que causa asco até ao mais vil de seus representantes. Mas há uma coisa muito certa nisso: a morte chegará para todos.

  2. E no velório de minha vó, eis quem surge um vendedor de pano para cobrir o corpo dizendo que era pra proteger dos mosquitos… meu pai disse… meu filho.. isso eh mto caro.. e nao tem necessidade… mas eu falei.. mas pai, nao importa…. compra que vai ser bom!!

  3. Mais um lixo de texto…. infantil…durante cinco minutos um monte de baboseiras…pra dizer no final que o Capital fala mais alto que a moral….
    Mas que merda e essa ??
    Petista recalcado é isso mesmo a grana falou muito mais alto pro tru ídolo Luladrão…. e tua turma. ACABOU A MAMATA FILHÃO !! CAIXÃO E VELA

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