Após seis meses da tragédia devido ao rompimento da barragem de resíduo tóxico da empresa Samarco/Vale no Rio Doce, em Mariana (MG), conversamos com algumas lideranças, movimentos e atingidos para falar sobre a situação. Embora 19 pessoas tenham morrido e os impactos ambientais sejam ainda imensuráveis, ninguém respondeu criminalmente pelo ocorrido.
Para o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), é preciso pensar um plano popular que dê poder de escolha aos atingidos. Segundo Talita Silva, da direção estadual do MAB em Minas Gerais, a empresa está decidindo pelos afetados e falta participação social nas deliberações. Para ela, só potencializando a economia local é possível sair da dependência que a extração de minério causa aos territórios.
O MAB entrou na região após o rompimento da Barragem?
Não, já atuávamos na região de Resplendor, Aimorés e Itueta com os atingidos da barragem hidrelétrica Elieser Batista. Eles foram atingidos de novo quando chegou a lama da Samarco, já trabalhávamos lá e tínhamos relação com aliados em Governador Valadares. Comecei na zona da mata no rio Piranga, com a população atingida de Soberbo e ameaçados em Porto Firme,em 2013 me mudei para Resplendor, na beira do Rio Doce. A barragem de Aimorés, como é conhecida, tem mais de 10 anos e é também uma barragem da Vale e da Cemig. A Vale mantém as mesmas atitudes com os atingidos por esse crime da Samarco/Vale/BHP. Então já fazíamos um trabalho, que agora multiplicou sei lá quantas vezes com o Rio Doce.
Como é essa questão das barragens no Estado?
O modelo econômico de Minas está muito atrelado à produção de energia e mineração, tanto é que a Vale é dona de várias hidrelétricas, como Candonga e Aimorés, a Samarco também possui hidrelétricas próprias.Todas as barragens atendem a esse modelo de indústria, que exige muita energia com essa extração de minério. É algo que está totalmente associado, então em Minas tem centenas de barragens de hidrelétricas e de rejeitos no mesmo esquema de licenciamento ambiental. Muitas não cumprem com as exigências necessárias para continuar operando. O que aconteceu é um símbolo disso, não cuidavam da segurança da barragem. Não tem fiscalização, o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) é completamente sucateado. E são poucos técnicos para fiscalizar centenas de barragens, então quem acaba fazendo a fiscalização é a própria empresa. E se você é dono não vai falar que está com problema, é claro.
Como está o trabalho de base do MAB na região? Houve muito deslocamento das populações?
Principalmente em Mariana, Paracatu, Barra Longa e Bento Rodrigues. Chegamos lá no dia 06 de novembro para tentar entender, e eu pessoalmente não consegui ficar e voltei para casa em Valadares e vi a lama chegar. Fizemos um esforço nacional para deslocar gente para as regiões atingidas e conseguir dar início à organização popular, porque se o próprio povo atingido não se organizar é a Samarco que vai falar para eles o que deve ser feito. Mas o MAB trabalha com o protagonismo dos atingidos, então fazemos reuniões com as famílias para orientá-las sobre os seus direitos. Tem muita gente que até hoje não foi nem reconhecido como atingido, e se pararmos para pensar a Bacia inteira foi atingida. Porque na pesca e agricultura, por exemplo, o impacto é muito além ao do rio e sua margem. Então trabalhamos com organização popular, mas é muito difícilporque a própria empresa já está desarticulando isso.
Eles estão estabelecendo um diálogo individual, sem atender coletivamente?
O atendimento é individual, a Samarco convence uns de que ela também era tão vítima quanto eles. Alguns moradores não veem a empresa como inimiga, e a gente tem que trabalhar isso. A maioria das comunidades mora na beira do trilho, então o minério vai embora o tempo inteiro. Enquanto o rio está desse jeito e muita gente está sem assistência e tudo mais, o minério continua indo embora e fazendo o papel imposto a Minas Gerais. Foi um crime, mas como a Vale tem um poder muito grande nos governos tanto estadual quanto federal, porque ela financia campanha de todo mundo praticamente, então fica nisso aí. Temos mais de seis meses do crime e continua a impunidade.
Quais são as alternativas a esse modelo?
A nossa alternativa é a criação de um plano de desenvolvimento construído pelas comunidades como a piscicultura, agricultura familiar, produção de energia local, etc, porque tem outras formas de produção também. Mas as comunidades têm que pautar qual é a sua diversidade de economia, porque a proposta da mineração é fazer a cidade depender dela. A gente vê isso em Mariana, a cidade depende da empresa, e a proposta do MAB é que a população decida quais são suas atividades econômicas: a agricultura familiar, agroecologia, produção de peixe, agroindústria, enfim, propostas da própria população. A gente insiste que o povo se organize nos grupos para as famílias conversarem e a gente trabalhar a coletividade e a diversidade de economia. Porque quando o minério acabar, o que será dessas cidades? Já vimos muitas cidades fantasmas quando isso aconteceu.
Quais são os números relacionados?
Hidrelétricas para construir sabemos que tem mais de 300 projetos, e no laudo do Ministério Público que em 2013 denunciou a possibilidade de rompimento da barragem de 700 barragens de rejeito só em Minas Gerais.