O sal, o consumo e as verdades dessa vida

O gigantesco outdoor dizia: “Emagreça, seduza e brilhe com as cápsulas Star Health”. Acompanhando os dizeres, uma modelo, loira, de olhos azuis, magra e sedutora, sugeria aos transeuntes a consumir o produto importado, diretamente dos EUA.

Do outro lado da cidade, a academia Monster B, também se utilizou de um grande outdoor, na busca por novos alunos. A frente da propaganda, um homem musculoso e sorridente sugeria o corpo perfeito a se conquistar. A frase convidativa dizia: “Quer ficar sarado e ganhar o mundo com uma tremenda e irresistível musculatura? Venha para a academia Monster B!”.

Fora assim que Silvana e Abraão resolveram mudar seus estilos de vida. Tímidos, inseguros e fora do padrão de beleza vigente, recorreram cada um a uma das propagandas.

O processo de Silvana fora um pouco mais simples. Com apenas uma capsula por dia e alguns minutos de corrida, conseguira, em duas semanas, emagrecer consideravelmente. Diga-se de passagem, a cada quilo novo que se perdia, uma foto era tirada a fim de contemplar a nova fase. Por mais que o processo de emagrecimento tenha sido mais rápido e menos árduo fisicamente, como tormento, fora acometida, diversas vezes, por uma súbita e devastadora dor de barriga, que a fazia disparar a procura do banheiro mais próximo. Mas tudo bem, na cabeça dela, era o preço a se pagar na busca por eliminar gorduras e obter um corpo que fizesse sucesso.

Abraão ralou bastante. Inaugurou todo o seu processo evolutivo com fartas compras na lojinha da academia. Eram camisetas coladas, shortinhos de lycra e alguns potes de suplementos também importados do EUA, que prometiam acelerar o processo de crescimento e força. Durante o treinamento, disparava gritos estridentes, numa demonstração de garra e superação. A cada final de série, olhava-se no espelho, enrijecia o bíceps e dizia para si: “Força, foco é fé.”.

Falei inicialmente da timidez de ambos, seria injusto e mentiroso se eu não disser que qualquer atividade física tem uma vasta capacidade de socialização. Mas não era bem isso que ambos buscavam. Queriam mesmo eram os supostos corpos anunciados pelas propagandas e destacar-se no meio da multidão. Afinal de contas, o modelo de vida que ambos perseguiam, prometia um destaque dentre as insanas e ignóbeis competições do dia-a-dia.

Contei um pouco da vida de cada um, para enfim dizer que a rede social os aproximou. Um moderno programa de relacionamentos fez com que ambos se aceitassem e se conhecessem. Ali, a distância física permitia que inseguranças e defeitos pudessem ser camuflados.

Na descrição de perfil, Silvana já destacava os números de cintura e glúteo que tinha como meta. Obviamente não descreveu somente os traços da futura beleza física, pontuou também bons gostos e um perfil batalhador. Tudo bem distante da realidade, mas que poderiam despertar e ampliar o nicho de interessados.

Abraão seguiu a mesma linha, além das descrições aquém da realidade, utilizou-se do photoshop para parecer com medidas mais robustas e teoricamente mais atraentes. Limitou-se a dizer que era um homem de trabalho e de vastos sonhos. Verdade, o sujeito era um ambicioso trabalhador que sonhava com posses ilimitadas.

Marcaram o encontro. Bem no centro da cidade, numa choperia popular na região. A preparação foi intensa: enquanto ela pintava o rosto de forma obsessiva, ele tirava e colocava roupas, a procura da vestimenta que o deixasse com a aparência mais corpulenta. Queria a todo custo camuflar a magreza que tanto o incomodava. Treinaram retóricas e sorrisos. Era preciso ser mais é melhor.

Superando a latente timidez, a conversa transcorria com pouca naturalidade. Mas existia.

Como ninguém no primeiro encontro costuma atirar no próprio pé, vestiram-se de santos imaculados, com personalidades fortes e gostos finos: tornaram-se quase perfeitos na visão do outro. Os defeitos, além de passarem longe, foram duramente criticados. Obviamente, apontaram para as limitações e imperfeições do restante da sociedade. Ali, eles atuaram como guardiães dos bons costumes e da moralidade.

Também fruto da insegurança, Abraão, homem de muito trabalho, deixou claro que o primeiro encontro não poderia ser longo. Com medo da falta de assunto, mentiu, afirmando que tinha uma dura jornada de trabalho pela frente. Como estratégia, combinou um jantar para o sábado seguinte, forjando um dote que nunca tivera: o de cozinhar.

Mesa posta, vinho chileno à mesa e o joelho de porco assando. Silvana, encantada com o gesto, admirava o pretendente administrando a comida e o clima aprazível.

Como tinha dito anteriormente, ninguém nunca expos a realidade. Principalmente a realidade anterior à entrada no mundo dos corpos perfeitos. Ou seja, hipertensão, gastrite, preguiça ou características fora do padrão de força, beleza e vigor, haviam sido banidos do repertório de descrições.

Falei que Abraão estrategicamente se colocou à disposição de fazer o jantar, mas esqueci de dizer que o sujeito jamais tinha ido além do macarrão com atum. Mas, como a sua nova personalidade e características foram impostas e descritas com tamanha incisão, ele mesmo acreditou que podia mais e arriscou o prato alemão.

Joelho servido. Mais uma vez, esbanjando gentileza e tentando manter certa informalidade, Abraão recomendou que Silvana não o esperasse para começar a comer. Ainda faltavam alguns detalhes da sobremesa que estava por vir ao final do jantar.

Uma garfada, duas garfadas e a tenebrosa constatação: o joelho provavelmente não havia sido dessalgado. Para não desagradar, Silvana, com grande bravura, comeu rapidamente, intercalando a mastigação com goles profundos no vinho chileno. A cada intervalo entre o gole e a garfada, ela disparava grunhidos de um falso prazer:

- Hum… que delícia Abraão. Um homem prendado. Já pode casar– era Silvana mentindo e usando um elogio trivial destinado a quem se atreve a cozinhar.

O que ninguém contava era que a vida viria, tão rapidamente, cobrar pela mentira e omissão. Como nem ele e nem ela conversaram com sinceridade, o castigo apareceu a galope e de forma fatal: a hipertensão não dita e todas as cápsulas consumidas, naquele período, conduziram Silvana a um profundo pico de pressão. A suposta salubridade corporal, tema principal das conversas, não resistiu à fartura de sal, encalacrada no joelho de porco.

Silvana em um ataque de tosse, passou mal e teve que ser levada às pressas ao hospital mais próximo.
Já no hospital, o marombeiro Abraão, gentil até então, suspirou com impaciência e recomendou:

-Gata, tem que malhar mais. Cuidar do corpo.

Silvana sem forças para manter a pose, apenas assentia com a cabeça.

Quando o médico lhe perguntou se ela andava tomando alguns remédios para emagrecer, foi posta contra a parede.Mentir não podia. Omitir também não era o ideal. Como estratégia defendeu-se:

- São americanos, doutor. Foi só um upgrade. Cápsulas da melhor qualidade.

Depois daquela inesperada situação, totalmente fora dos padrões de sucesso desejado para os primeiros encontros, o interesse de ambos desapareceu. Deletaram-se da rede virtual, passaram a malhar mais, a consumir novos suplementos e a novas redes de relacionamentos.

Novos encontros estavam por vir.

Paulo Branco é professor de Artes Marciais e cronista.

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