Era o primeiro domingo do mês. Como de costume, era dia de almoço na casa da família Miranda. Essa reunião familiar era uma tradição de muitos anos, onde pais, primos, tias e avós se reuniam para fazer de tudo um pouco.
As tias mais velhas eram sempre as primeiras a chegar. Tinham obsessão profunda por pontualidade. Os mais jovens, que eram bem poucos, já não tinham tanta precisão assim, coisa que tirava do sério o patriarca da família:
- Levanta da cama Tarcísio. Suas tias já estão ai esperando para o almoço.
E com a cara amassada e o mau humor das poucas horas dormidas, tendo em vista que sábado a noite era dia de esbórnia, Tarcísio corria para o banheiro, onda dava uma arrumada geral no rosto antes de se apresentar à família. Diga-se de passagem, o jovem achava um saco aqueles almoços, pois além de interromper seu sono o obrigava a certas formalidades que não faziam nem um pouco seu gênero.
Cheguei a falar que a família fazia muitas coisas nesses encontros dominicais, mas as principais eram encher o bucho e fofocar. Até mais fofocar do que comer, tendo em vista que muitas das tias, com processo digestivo em decadência, limitavam-se às entradinhas mais leves.
Com a boquinha cheia de castanha, a tia mais velha iniciava seu ritual predileto: fazer uma fofoquinha maliciosa, junto à irmã mais nova:
- Ih lá vem o preguiçoso do Tarcisinho, todo desgrenhado e sem o mínimo de compromisso com a família.
Tarcísio era o prato principal das tias de estômago e mente senil. Hermínia, a mais velha, era a principal algoz do jovem. Bastava uma brecha para ela lançar artilharia pesada, sempre fingindo ser fogo amigo:
- E ai menino, largou mais uma vez a faculdade né? E o inglês, nada? Olha, não é por nada não, sabe como sua tia gosta de você e fica preocupada, mas você tem que acordar para vida. Esse negócio de ficar cantando em banda pequena não dá carreira para ninguém. – e calava-se com a boquinha comprimida e com alguns pedacinhos de castanha no lábio superior, como se tivesse cumprido a sua primeira de muitas missões, que era jogar para o sobrinho a culpa de uma vida tão conservadora e vazia.
Na mesa do almoço, com a feijoada já posta, a tia mais nova abria o segundo round. Chamava a irmã para a tabela com uma leve encostada de coxa e posicionando a mão à frente da boca:
- Olha lá, além de preguiçoso parece um bicho comendo. Nem o garfo o diabo sabe segurar direito. Coitada da Carminha, aturar um filho desses não deve ser fácil.
Depois que a mais nova abria caminho, a mais velha, destemida e cínica entrava de sola, em alto em bom tom:
-Tarcisinho, sabe como é né? Hoje em dia, se não tiver uma formação decente fica difícil. Sem o inglês, pior ainda. E já que você não tem uma coisa nem outra, sugiro que tenha pelo menos elegância. As meninas reparam nisso tudo. Quem sabe com você se alinhando, não surge um bom partido?
E era nesse clima belicoso que a guerra fria rolava na casa dos Miranda. Foram anos e anos onde as mais velhas se impunham sobre o mais novo com aquele moralismo abjeto e cínico.
Até que Tarcísio começara a fazer sucesso com a música. Depois de receber convites para trabalhar em uma banda regional, o jovem iniciou o período de sucesso com uma turnê mundo afora. E depois daí, muita coisa mudou na casa dos Miranda.
- Cadê nosso artista, Orlando? - perguntava a tia mais velha para o pai.
- O anjo está dormindo. Trabalhou a semana toda e ontem chegou pela manhã. Precisa descansar.
E, como nos anos anteriores, o jovem levantava-se da cama, vestia uma roupa surrada e ia ao banheiro para passar uma água no rosto. Tudo era muito parecido aos anos anteriores, menos a recepção na sala:
- Olha ele ai! Nosso artista apareceu. Olha o jeitão dele, simples e cativante. Vai longe, vai longe.” – era a recepção da tia mais velha.
E tudo a partir do sucesso do músico mudara: os defeitos viraram qualidade e os ataques deram lugar à adulação. As tias queriam saber de tudo, todos os detalhes de cada show, cada música.
A relação com Tarcísio havia mudado, mas o recalque das tias não. Tentaram direcionar os torpedos para a sobrinha mais velha que, beirando os trinta, ainda não havia casado. Mas essa não dava chance a intrigas. E, no afã de arrumar alguma vítima para suas línguas enormes que transbordavam veneno, as tias passaram a buscar na internet fofocas ou alguma vítima em potencial.
E foi do computador que surgiu a mais nova polêmica: em plena quarta-feira de cinzas, um vídeo vinha viralizando a internet. O que para muitos era prenuncio de novos tempos, para a família e, principalmente para as tias, era o retorno de um pesadelo recheado de imoralidade: Adolfinho de trompete na mão, cheio de purpurina no corpo, dava um beijo triplo em pleno carnaval de rua. Além da composição do beijo ser feita por dois homens e uma mulher, para aumentar a polêmica, a menina do trio, além de dançar e beijar com os seios de fora, trazia uma frase polêmica rabiscada no corpo:
- Cunha, quem manda no meu corpo sou eu!
Dona Hermínia, a mais velha, ficou internada na Upa de Botafogo por dois dias. Já em casa, com ajuda de calmantes, a irmã mais nova relatou à família que Hermínia, em comportamento lascivo, passou a dormir nua e em momentos de devaneio pronuncia com volúpia o nome de uma amiga dos tempos de escola:
- Glorinha, Glorinha…
Foto: Agência Brasil
De vez em quando precisamos sair do sério e sermos loucos ,insanos e irresponsáveis.
As vezes essas e outras loucuras temporárias fazem faltas para mim.