Viva o Carnaval de Rua

O carnaval é um fenômeno social sem igual. É nesta época que as pessoas tiram suas fantasias e vestem-se daquilo que elas realmente gostariam de ser ou transmitir. As fantasias criativas exalam necessidade de uma vida mais alegre e pacífica. A comunicação entre as pessoas fica mais fácil e toda a formalidade que acompanha a grande maioria no resto do ano fica de lado.

No carnaval deste ano, muita coisa me surpreendeu. Circulei por muitos blocos no Centro, curti alguns shows no palco instalado na Lapa e conversei com muita gente. A primeira grande constatação e talvez a mais importante, foi à diminuição da violência. Natural que alguém se oponha e diga que viu o que eu não vi, até porque eu praticamente não fui além do Centro. Mas, mesmo com aquela região tendo um histórico de violência maior, por onde passei, não vi uma mísera briga.

Outra coisa muito comum de ouvir é que o carnaval é democrático. Se formos comparar com o resto do ano, com certeza o carnaval é muito mais democrático que qualquer outro evento. Mas, por mais que não se pague nada para entrar nos blocos de rua, sempre existiu uma divisão bastante evidente de acordo com o perfil socioeconômico e cultural dos foliões. Neste ano, percebi uma mistura maior, harmoniosa e pacífica, que engrandeceu o carnaval de rua. No palco da Lapa, esse cenário foi bastante emblemático: eram diversos grupos, de países, estados, regiões e gostos distintos, que confraternizavam e se divertiam. As bandas Agytoê, Casuarina e Bangalafumenga foram algumas das que se destacaram e que exaltam a nossa cultura não somente no carnaval, mas o ano todo.

Obviamente, nem tudo são flores. Ainda se via muito sofrimento por parte dos ambulantes. Muitas eram mães solteiras, que precisavam levar seus filhos para uma longa e cansativa jornada de trabalho. Essas crianças que crescem privadas de muitas coisas e com uma carga de sofrimento gerada pela desestrutura familiar e estorvos sociais, criam um bloqueio psicológico que compromete seu desenvolvimento.

E, depois de muitos anos onde o carnaval do Rio só tinha força no Sambódromo Darcy Ribeiro, de tempos para cá, os blocos de rua vão aumentando seu espaço e expandindo o sentimento de um mundo mais humano e simples. O que simbolizou bem isso foi uma frase que veio a frente de um dos blocos de rua, que dizia: “Por um carnaval mais precário.”. Era um forte sinal de que o abadá, camarote ou qualquer outro artigo de luxo, não são combustíveis necessários para a felicidade. É nesse encontro, onde o capital não se impõe nem faz diferença, que ocorrem as trocas, quebra de preconceitos e o surgimento de um novo caminho pacífico e rico para a cidade e para o país.

E o melhor disso tudo é que depois de um período de extrema intolerância, parece que a convivência entre os diferentes começa a surgir de forma respeitosa. Muitas mulheres confessaram que o assédio descomedido diminui bastante. Grupos de homossexuais relataram sentir uma intolerância menor. Sem contar no ambulante da Costa do Marfim, que disse que o Brasil é o melhor lugar do mundo. Segundo ele, mesmo com alguns atos de preconceito vividos durante o anterior, nada se compara aos lugares em que ele viveu.

Nesse progresso notável, a gente torce para que a luta por direitos e respeito às minorias cresça e que a cada ano que passe as coisas fiquem melhores. E mesmo com muita gente achando chata e excessiva a retaliação aos costumes preconceituosos, está bem evidente que batalhar firme nesses pontos está fazendo as coisas avançarem. E sem dúvidas, quem não abrir a mente e mantiver a postura desrespeitosa com os diferentes estará fadado ao isolamento e a uma mente doentia: a diversidade irá vencer os preconceitos. Sigamos em frente, com muito amor, respeito e exaltação da nossa cultura.

(*) Foto: José Feijó

Paulo Branco é professor de Artes Marciais e cronista.

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