Bonitinha, mas ordinária

Diferentemente dos demais golpes da nossa história, o atual vem sem armas ou derramamento de sangue. Amparada numa frágil argumentação jurídica, a ardilosa trama precisou ser insuflada pela grande mídia para que, mais uma vez, a grande massa avalizasse o ato.

A sanha golpista iniciou-se lá atrás, no governo Lula. Nome por nome, a linha sucessória do ex-presidente ia sendo derrubada, grande parte sem provas. Como o PT tinha uma elite burocrática e intelectual forte e ampla, optou-se por tocar o barco para frente, sem se preocupar com os que foram ficando para trás. Erro grave, que sem dúvidas iria comprometer o partido e o governo num futuro próximo.

José Dirceu, o único que até então ousou enfrentá-los, está preso e desde então, não se viu nenhuma atitude que combatesse a maldosa atuação dos veículos de imprensa.

Passando por cima desse fato trágico, a base governista ingenuamente achou que seria possível tocar o projeto sem questionar os grandes formadores de opinião. E foi se mantendo o nefasto ritual de, no dia seguinte à vitória nas urnas, sentar-se a mesa com seus principais algozes, seja no Jornal Nacional ou no programa de Ana Maria Braga. E o maior inimigo brindava a vitória, fingindo-se de sonolento e manso.

E foi assim, sem sofrer nenhuma resistência, que a grande mídia comandou a mente dos brasileiros a aplaudir e participar desse ato vil, que irá tirar uma Presidenta honesta para colocar em seu lugar um grupo de saqueadores.

O pior de tudo é que, mesmo agora, com o barco praticamente afundado, jamais se ouviu da boca da Presidenta ou de alguma liderança do governo algum questionamento sobre toda atuação da grande mídia. É como se o grande protagonista não passasse de um simples figurante.

Com astúcia, a Rede Globo dá voz a artistas que se posicionam contra o golpe e a favor do governo. Um bom exemplo foi o de José de Abreu, neste domingo, no programa do Faustão. Enquanto o ator fazia duras críticas a todos os movimentos golpistas, Faustão agia como se jamais tivesse estimulado os brasileiros a voltar-se pela derrubada do governo.

Outro caso bem emblemático é a atuação do humorista Marcelo Adnet. Contratado pela emissora, o humorista é livre para utilizar sátiras que debocham da própria emissora. Ou seja, falem bem, falem mal, eles continuam a liderar e comandar a política no país.

E assim, ela vai enganando a opinião pública, fingindo-se de imparcial. Uma estratégia inteligente, que coloca mais uma vez a Globo acima do bem e do mal.

Como já disse algumas vezes o jornalista Paulo Henrique Amorim, o que não se percebe é que a Globo não é golpista somente pelo o que ela diz, mas principalmente pelo o que ela se omite de dizer.

E, mais uma vez, perdemos a chance de combater aqueles que alimentam a ignorância do nosso povo com programas de entretenimento execráveis e um jornalismo sujo e parcial.

Num misto de crueldade e matreirice, a Globo é como a expressão de Nelson Rodrigues: bonitinha, mas ordinária.

Paulo Branco é professor de Artes Marciais e cronista.

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