
Sempre esteve na boca do povo que o grande problema do Brasil é a corrupção. No período da ditadura ouvia-se menos, já que não havia fiscalização e quem a denunciava corria riscos de vida. Passado os anos de chumbo, o tema voltou com tudo. Muitos intelectuais e políticos passaram, então, a pensar em leis e mecanismos de combate. O PT, de fato, foi o partido que se dedicou e acreditou que esse era o grande mal do país: uma demonstração de ingenuidade e, talvez, na época, inconsistência ideológica. Olhemos para a quantidade de leis e mudanças na estrutura criadas pelos governos PT: lei de ficha limpa, autonomia para a PF, criação da CGU, portal de transparência, CNMP, CNJ, lei de acesso à informação, lei da lavagem, lei anticorrupção. Um verdadeiro colosso.
Acontece que posterior a essa dedicação todos esses meios e leis foram utilizados exatamente contra o projeto de soberania capitaneados pelo PT. E isso não é fruto do acaso ou de uma contradição desses quadros, mas sim da histórica luta de classes, ingenuamente, deixada de lado quando se acreditou que as leis, sozinhas, eram capazes de reverter os rumos da sociedade. Quando se aprimoraram apenas leis e mecanismos, esqueceram-se de que a elite detêm recursos, conhecimento e influência. Ela dribla e burla as regras, pois são os seus que operam majoritariamente o judiciário, mercado e mídia. Quando o povo sabiamente diz que no Brasil só pobre vai preso, ele tem razão. Assim como os pobres, também são punidos os que defendem uma mudança na estrutura social. Estes, no caso, foram os primeiros a serem freados, simplesmente porque queriam mudar a lógica da sociedade e, para quem está por cima, é inadmissível.
É importante notar que elite brasileira tem apenas lapsos temporais de inconformismo: ela finge insatisfação com a corrupção, mas o que de fato a deixa transtornada é a possibilidade de mudança pelo bem da maioria. E quando essa ameaça é real, ela incorpora um repertório cínico e moralista, apenas visando mobilizar para recolocar as coisas no lugar de sempre. Para isso, ela apoia que se corrompam leis, o sistema, seja com intervenções ou arbítrio judicial, justificando que “tudo é por um bem maior”.
Portanto, a conclusão é que debater apenas a corrupção política é, na maioria das vezes, uma forma de implantar o desânimo e aprisionar mentes a uma questão infactível. Essa paralisia é o ponto chave para que os poderosos capturem o orçamento e a estrutura pública com objetivo de perpetuar seus privilégios, o que, muitas vezes, não é caracterizado como corrupção, mesmo que todo o repertório de ações exponha em vulnerabilidades a maioria da população.
A prova é que enquanto denunciamos com vigor a inadmissível corrupção do presidente em favor de seus parentes, o setor privado compra a preço de banana uma carta de crédito do Banco do Brasil e o judiciário aprova o esquartejamento da Petrobras, umas das empresas capazes de mudar a estrutura social do país. O fervor e a manifestação contra o primeiro caso é amplamente maior que os dois outros, mas é insignificante quando nos atentamos as consequências para a população e ao desenvolvimento do país.
Foto(*) - @LatuffCartoons